Em 2010, quando Winter's Bone foi lançado, Jennifer Lawrence ainda não era uma estrela de Hollywood, mas uma moça que havia acabado de chegar aos 20 anos e estava iniciando uma carreira. Agora, suponho que seja possível argumentar que o filme segue relevante por ter a presença da atriz, mas acredito que a produção sempre teve um grande potencial.
Com direção de Debra Granik, que assina o texto ao lado de Anne Rosellini, este longa-metragem de apenas 100 minutos foi indicado a quatro estatuetas no Oscar (filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante) e ganhou mais de 60 honrarias ao longo da temporada de premiações. O maior destaque, claro, sempre foi a atriz principal.
A história de Winter's Bone acontece em uma violenta comunidade rural dos Estados Unidos, mais especificamente na região das montanhas Ozark. Ree Dolly (Jennifer Lawrence) é uma garota de apenas 17 anos que precisa cuidar de dois irmãos pequenos e de uma mãe doente (Valerie Richards). Como se a situação já não estivesse difícil, ela descobre que seu pai colocou a casa como garantia em sua fiança, de modo que ele precisa comparecer em uma audiência ou a família ficará desabrigada – o detalhe é que ele está desaparecido.
Ree, então, precisa entrar em contato com seu tio (John Hawkes) e ir atrás de várias pessoas “barra pesada” da comunidade – muitos, seus parentes distantes – para tentar localizar o pai e manter a posse de sua própria casa. O processo é bastante solitário e desesperador, com muitas mentiras e episódios de violência.
Assim, vamos entendendo aos poucos as regras não escritas do local em que a garota vive e, também, quem exatamente é seu pai; frequentemente, isso também envolve quebrar noções preconcebidas. A própria protagonista de Winter's Bone surpreende ao longo da história, provando que realmente faz parte daquele contexto e que sabe as consequências das coisas que está fazendo.
Especialmente neste ponto, acho que faz muito sentido elogiar as camadas que Jennifer Lawrence dá à personagem. Ao mesmo tempo em que Ree é uma menina e não sabe de muita coisa do mundo, ela também já sofreu um bocado e está ciente de que sempre vai precisar lutar para se manter viva. É um peso muito grande que ela simplesmente precisa segurar, pois não há ninguém capaz de fazer isso por ela.
Para completar, Winter's Bone traz outros elementos interessantes ao explorar as hierarquias e os papéis de gênero em ação nessa comunidade, afinal, para obter as informações que deseja, a protagonista precisa da aprovação feminina. Entre as personagens de destaque – todas muito diferentes, mas sempre marcadas pela brutalidade local – estão a amiga de Ree, Gail (Lauren Sweetser); a “atenciosa” vizinha da família, Sonya (Shelley Waggener); e Merab (Dale Dickey), a companheira de um dos homens mais perigosos (Ronnie Hall).
Outra característica marcante é que, ao mesmo tempo em que pinta uma realidade cruel, a produção não parece julgar aquelas mulheres; as coisas simplesmente são como elas são e ninguém tem culpa por ter nascido dentro dessa conjuntura (e se virado como possível). É quase como se o filme se limitasse a apresentar uma nova cultura com carinho, embora ciente de que as circunstâncias são problemáticas.
Assim, eu acredito que Winter's Bone continuaria sendo um excelente filme mesmo sem a presença de Jennifer Lawrence (desde que houvesse uma atriz decente em seu lugar, claro). Mas, sem dúvida, ela foi uma ótima escolha e garante que a produção seja crível e se mantenha relevante mesmo depois de tanto tempo.

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