Divagações: Hyakuemu

Hyakuemu

Um tempo atrás, surgiu uma dessas trends de vídeos sobre pessoas que demonstraram algum tipo de promessa na infância (geralmente por tirarem boas notas), mas que se tornaram adultos frustrados, ao menos parcialmente. O resultado era algo meio tragicômico, mas que funcionava nas redes sociais.

Hyakuemu não é exatamente sobre isso, mas ele deixa um gosto similar na boca. Este é um filme sobre amadurecer sabendo que você tem capacidade para algo que a maior parte das pessoas não tem – e, mesmo assim, você não consegue atingir o nível que gostaria. Além disso, também é sobre encontrar uma motivação para algo que depende exclusivamente de você e que, em muitos casos, pode realmente parecer algo sem propósito. 

Togashi (Tôri Matsuzaka) é um menino que, desde muito cedo, demonstrava aptidão para correr provas curtas. Depois de ter algum sucesso em competições de 100 metros nacionais e direcionadas para a sua idade, ele começa a ver seu progresso estagnar já no final da adolescência. Ainda assim, encontra forças para se tornar um profissional; mas isso, obviamente, traz novos desafios.

Ao longo da vida, Togashi cruza com algumas pessoas que fazem a diferença em sua trajetória. Uma delas é Komiya (Shôta Sometani), um colega de turma que corre para se distrair de seus problemas e que aceita a ajuda de Togashi para aprender técnicas melhores. Outra é Nigami (Jun Kasama), um corredor alguns anos mais velhos e que também tem muito potencial, mas que enfrenta problemas físicos ainda jovem. Por fim, destaco Zaitsu (Kôki Uchiyama) e Kaido (Kenjiro Tsuda), corredores mais experientes e que lidam com as dificuldades de maneiras bastante próprias.

Com isso, Hyakuemu frequentemente questiona seus personagens: “Por que você corre?”. Isso surge tanto de repórteres quanto dos próprios atletas, que percebem suas razões irem mudando ao longo do tempo. Ao forçar cada um a colocar isso em palavras, o longa metragem também leva o espectador a encarar questões como a maturidade (e o envelhecimento) e a forma de lidar com desafios.

Assim, espero já ter deixado claro que esse não é exatamente um filme clássico de esportes, em que o protagonista busca por uma vitória ou, talvez, uma superação. Togashi está sempre interagindo com o mundo da melhor forma que consegue, frequentemente de uma maneira bastante reativa. Inclusive, é comum que os momentos finais de competições importantes nem sejam mostrados; o que interessa é o caminho até lá.

Por conta dessa escolha de enfoque, Hyakuemu acaba sendo um filme um pouco estranho, com um ritmo narrativo propositalmente irregular. Há grandes intervalos de tempo e, quando reencontramos os personagens, eles não são necessariamente as mesmas pessoas que julgávamos ter entendido (ainda que, pensando bem, as mudanças façam sentido). Mas fica claro que, depois do final, eles seguirão em transformação.

Além disso, visualmente, a produção também é única. Há um grande uso de rotoscopia para garantir um retrato adequado do mundo das corridas, ademais de uma série de sequências pensadas para transmitir o que os diálogos (frequentemente bem expositivos, convenhamos) não conseguem comunicar. Uma das sequências mais bonitas envolve os momentos posteriores a uma corrida que acontece na chuva; garanto que vale a pena.

Dessa forma, preciso admitir que Hyakuemu não é exatamente um filme divertido, assumindo muito mais o posto de uma obra reflexiva (algo que eu não imaginaria a partir dos materiais de divulgação). Se você está em crise profissional e busca por um novo caminho, esse é o filme que pode fazer com que você afunde, mas também pode te ajudar a levantar.

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