Divagações: Gonzaguinha - Da Maior Liberdade

Gonzaguinha - Da Maior Liberdade

Como uma pessoa que não entende muita coisa de música, eu sempre fico em dúvida sobre me aventurar em documentários sobre artistas. Mas suponho que o segredo é assumir minha ignorância e me permitir descobrir novas coisas. Com Gonzaguinha - Da Maior Liberdade, por exemplo, percebi que conhecia várias daquelas canções; eram coisas que meus pais ouviam em casa. Eu só não tinha conectado a obra ao autor.

Dirigido por Susanna Lira, o filme – que recebeu o prêmio de melhor documentário em longa-metragem no Festival de Gramado deste ano – intercala imagens de arquivo com a dramatização de entrevistas. Para estas cenas, André Dale assume o papel de uma forma tão intensa e digna de seu personagem que, confesso, até esqueci em um determinado momento que não se tratava do “próprio”. 

Com isso, temos Gonzaguinha em suas próprias palavras, em vez de um retrato construído por meio de uma série de entrevistas com outras pessoas que o conheciam (há pequenas exceções, mas vindas dos arquivos). O recurso é, sem dúvida, interessante e consegue preencher de forma fluída a duração do filme. 

Ao mesmo tempo, sinto que faltou uma dimensão do artista que dependeria do olhar alheio, ou seja, há espaço para uma continuação (ou, o que é mais provável, mais de uma). Sem um contraditório (na falta de um termo melhor), Gonzaguinha - Da Maior Liberdade se torna uma celebração do artista e de suas opiniões – e, bom, não há nada de errado nisso, desde que estejam todos cientes.

De uma forma ampla, a produção assume a missão de falar sobre as mais de 50 composições do artista que foram censuradas pela ditadura e aproveita para tratar da complicada relação dele com seu pai, Luiz Gonzaga. Ambos são objetivos bastante complexos por si só e eu diria que o primeiro caso é mais bem sucedido que o segundo.

Contudo, não acredito que haja uma falha na abordagem, apenas delicadeza para tratar de um tema bastante pessoal. Inclusive, a questão circunda muitos outros tópicos de Gonzaguinha - Da Maior Liberdade, como o retrato que é feito da infância no Morro de São Carlos, favela na zona central do Rio de Janeiro, e os primeiros anos da vida adulta. A importância dada pelo próprio artista em relação à figura paterna surge de diversas formas e é impossível a ignorar.

O recorte escolhido também faz com que os anos finais da vida Luiz Gonzaga Júnior acabem sendo retratados mais rapidamente; afinal, com a chegada da democracia, não havia mais canções sendo censuradas. Mas isso não significa que a fase “romântica” do artista não esteja presente, com destaque para “Não dá mais pra segurar (Explode coração)”.

Aliás, como não poderia deixar de ser, Gonzaguinha - Da Maior Liberdade é carregado densamente de música. Após os créditos, é difícil resistir à tentação de simplesmente ir ouvir a “Comportamento geral” ou “O que é o que é?”. Para quem é fã, acredito que seja um deleite (em uma sala de cinema, deve ser uma experiência fantástica; infelizmente, assisti na minha própria casa). Para quem não conhece tão bem, é uma descoberta maravilhosa.

Outras divagações:
Gonzaga - De Pai para Filho
Fernanda Young: Foge-me ao Controle

Comentários