Um capítulo alongado, uma temporada encurtada. Infelizmente, com um lançamento direto para a Netflix e a característica de ser a continuação de uma série de três temporadas, Heartstopper Forever dificilmente conseguiria alcançar um status de “filme de verdade”. A parte boa é que os envolvidos pareciam cientes disso e resolveram fazer o melhor possível dentro das circunstâncias. A sensação que fica é a de que “pelo menos, teve um final”.
Baseado no último volume da série de quadrinhos de Alice Oseman e em um livro anterior, Heartstopper Forever dá continuidade ao romance de Charlie Spring (Joe Locke) e Nick Nelson (Kit Connor). Agora, com um relacionamento já estabelecido e muitas barreiras supostamente vencidas, eles precisam lidar com a perspectiva de que iniciarão suas vidas adultas juntos, ainda que possivelmente separados pelos estudos universitários. Desta forma, surgem novas inseguranças.
Para completar, a estrutura aparentemente inabalável das amizades começa a mostrar rachaduras. O namoro de Tao (William Gao) e Elle (Yasmin Finney) enfrenta problemas; Isaac (Tobie Donovan) está buscando conforto na solidão; Tara (Corinna Brown) e Darcy (Kizzy Edgell) têm foco em seus próprios planos; e Imogen (Rhea Norwood) diz diretamente que as dinâmicas estão mudando. Até mesmo Tori Spring (Jenny Walser) parece estar encontrando seu próprio caminho ao lado de Michael (Darragh Hand).
Assim, Heartstopper Forever tem uma natureza agridoce. Para quem gosta da série, estes são os personagens de sempre claramente se despedindo – tanto do público quanto de uma versão de si mesmos. Além disso, o novo formato não permite muito aprofundamento nos coadjuvantes, de forma que vários deles se transformam em “participações especiais”, com poucos segundos de tela. As imagens estão mais bonitas e há uma alegria em estar de volta, mas algo se quebrou no processo.
Para completar, a estrutura da trama tem uma tradução difícil para o formato de um longa-metragem. Os quadrinhos são naturalmente mais episódicos e a necessidade de realizar algo contínuo fez com que boa parte da leveza fosse trocada pelo dramalhão (caso você tenha lido o livro, sim, é mais ou menos por aí que a história vai seguir). Para quem não é mais adolescente, há momentos difíceis de encarar; mas suponho que isso já era verdade na série.
Além disso, as referências a temporadas anteriores são explícitas. Ou seja, em vez de um enquadramento similar e a reconstrução de dinâmicas, Heartstopper Forever tem uma profusão de flashbacks – algo desnecessário considerando que os fãs (afinal, só eles terão chegado até o filme) provavelmente não precisam dessas lembranças. Considerando que houve uma construção muito mais delicada nesse sentido ao longo da série, achei que essa foi uma solução barata demais.
Mas, apesar de seus problemas, Heartstopper Forever segue fiel ao espírito (e ao material) original. Há vários diálogos tocantes ao longo do filme e há muitos momentos especiais que fazem a vergonha alheia valer a pena. Em tempos de cancelamentos em massa, esse é um projeto que conseguiu contar sua história do início ao fim e isso só foi possível porque há algo de especial em Nick e Charlie.
Outras divagações:
Still Alice
Colette

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