Divagações: Pixote: A Lei do Mais Fraco

É estranho pensar que um dos diretores mais influentes da história do cinema brasileiro, na verdade, seja argentino – ao mesmo tempo, isso f...

Pixote: A Lei do Mais Fraco
É estranho pensar que um dos diretores mais influentes da história do cinema brasileiro, na verdade, seja argentino – ao mesmo tempo, isso faz todo sentido. Hector Babenco olha para o Brasil com a compreensão de um vizinho latino-americano e o amor de quem não é daqui, mas escolheu esta terra para viver. Ainda assim, ele não se entrega a ufanismos.

Justamente por conta disso, Pixote: A Lei do Mais Fraco é um filme difícil de assistir. Lançado em 1980, ele conta a história de crianças de rua daquela época e, por mais que as coisas tenham mudado muito de lá para cá, a produção ainda machuca, ainda está próxima demais da realidade. Para completar, também dói o conhecimento de que a vida do ator principal seguiu mais ou menos como a gente imagina que a de seu personagem seguiria.

Pixote (Fernando Ramos da Silva) é um menino de 10 anos que vai parar em um reformatório em São Paulo. A vida dentro da instituição é cruel, mas ele a encara com a coragem daqueles que não conhecem um mundo diferente. Inclusive, em mais de um momento, adultos “de fora” comentam que a vida “lá dentro” é melhor.

Inicialmente solitário, o menino não demora a fazer amigos como Fumaça (Zenildo Oliveira Santos), um rapaz que sabe como conseguir maconha e cuja mãe aparece para visitas toda semana, uma raridade. Outros companheiros incluem: Lilica (Jorge Julião), que é constantemente ameaçado por ser gay; Dito (Gilberto Moura), que sonha em ir para o Rio de Janeiro; e Chico (Edilson Lino), que quer ser bandido quando crescer.

Após uma revolta dos internos, Pixote participa de uma fuga em massa e, junto de seus amigos, tenta levar a vida nas ruas. Eles ficam devendo para gente perigosa (Tony Tornado), tentam vender drogas – e são trapaceados por uma mulher de negócios muito séria (Elke Maravilha) –, roubam bolsas e carteiras e cometem todo o tipo de pequenos delitos até encontrarem refúgio aplicando golpes em conjunto com a prostituta Marília Pêra (Marília Pêra). O caminho, entretanto, é repleto de despedidas forçadas.

Pixote: A Lei do Mais Fraco parece ser formado por uma sucessão de episódios inacreditáveis, mas terrivelmente possíveis. A estrutura faz sentido com a história sendo contada e com as demais escolhas diretoriais. As crianças do elenco fazem parte desse mundo, brincam aquelas brincadeiras e vivem aquela vida. Há um desespero sincero que seus olhares parecem não entender, mas que os atores adultos e experientes querem ajudar a contar.

Inclusive, ao mesmo tempo em que seu protagonista não entende bem a realidade cruel que o cerca – uma dinâmica onde sexo e drogas são as principais moedas –, ele sabe que precisa endurecer rapidamente para poder se virar. Nunca fica claro como Pixote foi parar no reformatório, mas ele nunca questiona seu destino e não se vê como uma vítima da sociedade. Ele só olha para frente e segue firme, tendo o senso de companheirismo como seu principal valor.

Assim, Pixote: A Lei do Mais Fraco provavelmente é um dos filmes mais tristes e desoladores que já assisti. Não se trata exatamente de uma história de amadurecimento, já que pouco foi realmente aprendido. É uma perda da inocência acompanhada pelo acordar de um instinto de sobrevivência. Pixote não cresce, ele apenas endurece e segue em frente, rumo ao destino de seus irmãos.

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