Divagações: Paris is Burning

Paris is Burning
Filmado no Harlem na segunda metade da década de 1980, o documentário Paris is Burning pode parecer curtinho e simples em essência, já que possui pouco mais de uma hora de duração, mas ele esconde mais de 75 horas de filmagens e uma riqueza cultural que raramente tem paralelos no cinema. Lançado em 1990, o filme representa justamente um momento de transição, retratando algo formativo e que estava prestes a mudar completamente

De uma maneira resumida, a produção traz um retrato dos bailes realizados no período, que reuniam a comunidade LGBTQIA+ ao redor de competições que lembram desfiles temáticos. Além disso, estes encontros também originaram um estilo de dança chamado voguing, onde os bailarinos fazem poses marcantes, que poderiam figurar na capa da revista Vogue.

Mas, ao adentrar nesse espaço de pessoas marginalizadas tanto por sua sexualidade quanto por sua origem ou por sua raça, Paris is Burning revela um mundo com suas próprias regras, terminologias e vivências. O mergulho parece divertido e cheio de curiosidades em um primeiro momento; por isso, há quem critique o documentário justamente por trazer essa realidade da mesma forma como um “homem branco” mostraria um “povo exótico”.

Esse argumento, contudo, ignora que a cineasta Jennie Livingston é lésbica e, na época, era membro da Aids Coalition to Unleash Power (Act Up). Ao mesmo tempo, não é possível negar que ela vinha de uma classe privilegiada e que foi graças a isso que conseguiu o conhecimento necessário para fazer o filme e até mesmo acesso aos meios de financiamento (o que, aliás, não foi uma trajetória fácil).

E essa não é a única polêmica do filme, obviamente. Paris is Burning já foi objeto de diversos estudos acadêmicos, com os comportamentos e acontecimentos mostrados sendo criticados por grandes autoras dos estudos feministas por uma variedade de motivos. Não tenho cacife para entrar nesse mérito, mas me chama atenção como certas pessoas utilizam isso para acrescentar reprimendas aos indivíduos, ignorando toda uma realidade social e a manifestação disso de diferentes formas.

Mas sinto que saí demais do tema. Afinal, após a sensação inicial de mergulho, Paris is Burning mostra que tem muita profundidade. Ao dar voz aos marginalizados e mostrar seu cotidiano, o documentário também cresce em sutilezas, como as mentiras – assumidas ou não – que servem para sustentar a imagem que as pessoas criam para si mesmas. Em um dia a dia difícil, onde roubos, prostituição e drogas se inserem com facilidade, ir a um baile e competir é uma diversão inocente.

Outro retrato interessante vem com as famílias, que funcionam como estruturas de apoio e acolhimento ao mesmo tempo em que são praticamente times, com a entrada por vezes vinculada ao desempenho nos bailes. Ainda que hoje se fale muito sobre as “famílias escolhidas”, é muito tocante ver como as casas se formavam e se desenvolviam em plenos anos 1980.

Mesmo retratando uma época e um local bastante específicos, Paris is Burning segue sendo necessário. Cerca de 35 anos após seu lançamento, o filme parece recente – não só porque as gírias foram englobadas pela cultura pop, mas porque muitas das mazelas retratas seguem vivas. Além disso, a produção também deixa bem claro o que já deveria ser óbvio: divertir-se, dançar, competir e ter orgulho de ser quem você é fazem parte da natureza humana.

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