Divagações: Frankenstein

Frankenstein

Em meio a tantas releituras e tentativas de explorar múltiplos ângulos, é curioso encontrar uma versão tão “fiel” ao conhecido livro de Mary Shelley quanto esta adaptação escrita e dirigida por Guillermo del Toro. Obviamente, este novo Frankenstein inclui muitas liberdades criativas – incluindo a exclusão de personagens relevantes, mudanças de função de outros e até todo um novo passado para um dos protagonistas –, mas sigo com a sensação de que reencontrei a obra literária na tela da minha televisão (e que tristeza não ter tido a oportunidade de ver em uma sala de cinema).

Victor Frankenstein (Oscar Isaac) é um médico obcecado com a ideia de criar vida; assim, apesar de todo o seu brilhantismo, ele também é um pária na comunidade científica. Eis que surge em sua vida Harlander (Christoph Waltz), um homem rico que está disposto a financiar a empreitada e que, de quebra, é tio da futura cunhada de Victor, Elizabeth (Mia Goth). Assim, não demora para que o próprio irmão do médico, William (Felix Kammerer), também esteja envolvido nos planos.

A questão é que, quando os estudos finalmente geram um único fruto, Victor não está preparado para lidar com sua própria criação (Jacob Elordi), taxando-o de monstro. Desesperado, ele decide matar a criatura, apenas para descobrir que ela não pode morrer. A relação entre ambos, então, desenvolve-se com base na violência e na incompreensão, com o monstro se tornando cada vez mais humano e o homem, mais monstruoso.

Frankenstein narra esse conto tão conhecido com paciência, despejando uma profusão de personagens ao longo de duas horas e meia. Há desde um capitão turrão (Lars Mikkelsen) a um sábio cego (David Bradley), passando pelo pai cruel (Charles Dance). Cada uma dessas figuras acrescenta uma camada de complexidade e ajuda a formar os dois protagonistas, fortalecendo suas características antagônicas.

Como se não bastasse, Del Toro capricha nas mensagens visuais, com direito a referências às adaptações da década de 1930. Frequentemente, Oscar Isaac está usando marcantes luvas vermelhas, que servem tanto para o objetivo prático de não mancharem suas mãos de sangue quanto para mostrar que elas estão, sim, imundas. A cor ainda remete aos vestidos da mãe de Victor (também interpretada por Mia Goth) e serve de contraste e complemento aos belos e exagerados vestidos verdes de Elizabeth, sua única verdadeira rival intelectual.

Mas Frankenstein não se torna dependente de sua estética (embora eu precise dizer que os figurinos, cenários e elementos de cena são primorosos). Além de ter uma história construída cuidadosamente, a produção se sustenta nos ombros de seu elenco. Oscar Isaac dá a partida e transporta facilmente o público para aquele mundo, enquanto Jacob Elordi é responsável por vender a fantasia e o misterioso, alternando uma clareza dotada de muita sensibilidade e momentos de uma raiva estrondosa. Além disso, nos papeis de apoio, Christoph Waltz e Mia Goth também encontram espaço para brilhar e mostrar a que vieram.

Assim, por mais que se trate de uma história muito conhecida e que já foi contada inúmeras vezes, o longa-metragem consegue vender a ideia de que compensa mergulhar novamente nesse mundo, sem a presença de subterfúgios estrambólicos. Afinal, a qualidade de um bom drama é suficiente e o caráter incômodo dos dilemas apresentados segue relevante para o público atual (tanto é que seguimos voltando para esses temas).

Frankenstein é uma lição sobre como contar bem uma boa história. Não é à toa que a produção recebeu um número respeitável de indicações e premiações; na minha humilde opinião, merecia muito mais (mas eu sou suspeita).

Outras divagações:
Pacific Rim
Crimson Peak
The Shape of Water
Guillermo del Toro's Pinocchio

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