Divagações: Conclave

Conclave

Eu não sou católica, mas gosto de acompanhar a comoção que ocorre quando chega o momento de escolher um novo papa. Em pouco tempo, o luto dá lugar a uma eleição fechada e misteriosa, que carrega expectativas vindas de diversos cantos do mundo. Para os brasileiros que não estão encarcerados no Vaticano, o jeito é esperar a Ilze Scamparini subir em algum telhado italiano para mostrar se a fumaça lançada após cada votação é preta (ou seja, não houve uma decisão) ou branca (habemus papa).

Conclave traz o outro ângulo dessa história, acompanhando os bastidores da escolha. Lawrence (Ralph Fiennes) é o cardeal responsável por organizar a votação, mas isso não impede que ele seja apoiador de Bellini (Stanley Tucci) – que representaria uma escolha mais “liberal” – ou mesmo que seja considerado para o cargo de pontífice. 

Ainda assim, os favoritos são outros: Tremblay (John Lithgow), Adeyemi (Lucian Msamati) e Tedesco (Sergio Castellitto) – um mais “conservador” que o outro, digamos assim. Como se não bastasse, há ainda o surgimento de um votante inesperado, Benitez (Carlos Diehz), o que pode alterar o balanço da decisão e até mesmo as opiniões de Lawrence sobre seu futuro na igreja.

Com isso, Conclave cria um cenário político interessante e se posiciona. Obviamente, o “lado” defendido pelo protagonista também é digno de várias polêmicas, mas o retrato claramente se concentra em ações mais problemáticas vindas de quem tende a uma maior repressão moral (o que faz sentido, convenhamos). 

Mas os debates entre os participantes se concentram em estratégias e outros aspectos vinculados à instituição, o que é interessante de acompanhar – ao menos para uma pessoa alheia a esses assuntos. Nesse sentido, ainda merece destaque a presença discreta, mas constante, das freiras lideradas por Agnes (Isabella Rossellini).

Particularmente, considero Conclave um daqueles filmes em que o meio é mais interessante do que o final em si. Os desdobramentos e as tensões são bem desenvolvidos, assim como os diálogos (a produção ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado); entretanto, isso não impede que o desenrolar da história seja um tanto quanto óbvio. Inclusive, eu não duvido que algumas pessoas sejam capazes de saber quem será o novo papa meramente lendo a sinopse.

Além disso, a produção conta com atuações muito contidas, mas eficientes, daquelas capazes de dizer muita coisa com um olhar. Enquanto Ralph Fiennes vai guiando o espectador pelas políticas do Vaticano, o restante do elenco vai revelando os segredos de seus personagens aos poucos, sem perder a pose. Se o Oscar de Melhor Elenco existisse em 2025 (para filmes de 2024), acredito que essa seria uma boa aposta para a estatueta.

Essa junção de um bom texto com um bom elenco é suficiente para que Conclave seja um filme de qualidade, restando ao diretor Edward Berger apenas conduzir uma orquestra estelar por uma partitura premiada. Ou quase isso, uma vez que o longa-metragem se esmera nos detalhes, trazendo aspectos como uma iluminação e um figurino riquíssimos e dignos da temática, capazes até de distrair o público quando necessário.

Conclave é uma história muito bem contada e que se aproveita de um contexto muito específico para falar de política. Esse não é um filme sobre a religião

Comentários