Para começar, preciso admitir que nos últimos tempos estou levemente obcecada com Marguerite Duras e sua obra. Por isso, aceitei rapidamente a chance de ver Hiroshima mon amour, que tem roteiro escrito pela autora. Nesse ponto, ela já era uma escritora reconhecida, mas estava apenas começando no cinema e ainda não tinha entregado algumas de suas principais obras.
Ainda assim, é fácil enxergar a autora e seu estilo na obra – embora muitas dessas características se misturem com a estética do período e do diretor Alain Resnais (que estreava no mundo dos longas-metragens). Entre as principais inovações do filme, por exemplo, estão o uso de cortes rápidos para flashbacks e a presença de flashbacks rápidos para memórias intrusivas. Embora isso possa ser atribuído ao cineasta e/ou à edição, quero acreditar que há uma influência de Duras.
Além disso, dizem que Jean-Luc Godard afirmou que Hiroshima mon amour era “o primeiro filme sem nenhuma referência cinematográfica”. Supondo que ele se referia à narrativa, também dou um crédito relevante para a roteirista. Ou seja, sou fã e todos os elogios que eu encontrar, darei um jeito de atribuir a ela.
A história acompanha uma atriz (Emmanuelle Riva) que foi a Hiroshima para gravar um filme sobre a paz. Ela precisa voltar para a França, onde as filmagens continuarão, porém, acaba envolvida em um romance com um arquiteto local (Eiji Okada). Embora nenhum dos dois possa assumir o relacionamento, o intervalo entre o fim das filmagens e a partida do avião se torna um período para aprofundar a intimidade, o que inclui uma longa confissão da francesa sobre seu primeiro amor e o sofrimento que se seguiu.
Dessa forma, Hiroshima mon amour é como um recorte no tempo para os personagens, que vivem algo muito especial para ambos. Mas, à medida que a despedida se arrasta, a atriz acaba se forçando a reviver memórias difíceis em um local já muito marcado pela dor. Assim, a aparente leveza do romance se transforma em mais um episódio de sofrimento – é bonito, mas também é pesado.
Para completar, a produção mistura seu próprio drama com o da cidade, trazendo longas sequências quase documentais sobre as consequências da bomba atômica (várias vindas do filme Hiroshima, de 1953). O conteúdo é, sem dúvida, interessante por si só e ajuda a situar os personagens no tempo e a delimitar suas circunstâncias, mas há um claro descolamento entre as coisas.
Também me sinto obrigada a “avisar” que Hiroshima mon amour é um longa-metragem com apenas dois personagens; quando eles não estão conversando diretamente, estão lembrando momentos de seu passado. Dessa forma, a produção pode não ser exatamente “dinâmica”, sendo majoritariamente construída por meio de flashbacks.
Hiroshima mon amour é um filme sobre amores impossíveis, do tipo que não se faz mais. É sobre pessoas marcadas por circunstâncias horríveis, que fogem de seus alcances e com as quais precisam aprender a conviver para poder seguir em frente. É dramalhão, sim, mas é drama da melhor qualidade.
P.S.: O filme estreou no festival de Cannes, mas não participou da mostra principal por causa de seu tema e para “evitar ofender” o governo dos Estados Unidos. Da minha parte, acho que é um bom motivo para assistir.

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