No livro “Susan Sontag: a entrevista completa para a revista Rolling Stone”, é a própria Susan quem menciona Ai no korida. Ela está respondendo uma pergunta sobre versos de William Blake quando fala que “levar a sexualidade para outro plano onde ela se torna algo psicológico e emocional não funciona muito bem – só funciona quando está controlada ou inibida de alguma forma” (tradução de Paula Carvalho).
A frase, assim, torna-se uma deixa para perguntar se Jonathan Cott (o entrevistador) viu o filme de Nagisa Oshima. Com a confirmação dele, que descreve uma sequência que “nunca vai esquecer”, ela segue: “É uma experiência autêntica. Por sorte, acontece com poucas pessoas. Mas é uma ilustração perfeita do que acontece quando não existem freios. Eles foram até o fim, e o fim é a morte”.
Polêmico até hoje, Ai no korida ainda gera debates por conta de suas cenas de sexo – que são obviamente reais, diga-se de passagem –, o que também cria certa fascinação ao redor da produção. O filme atingiu recordes quando foi exibido em Cannes (foram necessárias 13 sessões); precisou se defender judicialmente após o Berlinale (conquistou o direito à exibição sem cortes); foi proibido pela ditadura militar no Brasil (a liberação aconteceu em 1980); e ainda é censurado no Japão (a revelação dos negativos precisou ser feita na França).
A história é baseada no relacionamento real entre a ex-prostituta Sada Abe (Eiko Matsuda) e seu chefe, Kichizo Ishida (Tatsuya Fuji), que terminou em um crime em 1936. Obcecados um pelo outro, eles se isolam do mundo e vivem um relacionamento sexual intenso e sem limites, marcado por ciúmes e pela promiscuidade.
Com isso, preciso dizer que Ai no korida não tem exatamente uma trama complexa. A produção não busca por grandes explicações psicológicas e, também, não traz o passado dos personagens à tona (para os curiosos, recomendo uma olhada na página de Sada Abe na Wikipédia). Ou seja, vemos apenas o desenrolar desse relacionamento e, desde o começo, parece estar claro o que vai acontecer.
Assim, o que se segue é uma crescente, gerando um acúmulo de situações-limite e alimentando a expectativa em relação aos acontecimentos finais. Com essa capacidade de provocar choque e estranhamento, essa segue sendo a versão mais conhecida dessa história, por mais que existam outras adaptações. Se o final parecer abrupto, pense que isso também faz sentido considerando o recorte escolhido.
Além disso, mesmo 90 anos após os acontecimentos retratados e 50 anos após o lançamento do longa-metragem, a temática de Ai no korida segue relevante. A humanidade ainda vive em conflito (e em deslumbre) com sua própria sexualidade e casos como esse são exemplos marcantes sobre os limiares (não) existentes.
Como se não bastasse, a direção é de Nagisa Oshima, um dos mais importantes nomes do cinema japonês. Ele questiona os tabus de sua própria cultura de uma forma provocativa e, também, muito bonita. Ao longo de toda a produção, há bastante atenção aos detalhes e a iluminação tem um papel crucial para contar a história, especialmente com a inevitável aproximação da sequência final.
Dito isso, Ai no korida se sustenta fortemente nos ombros de sua atriz principal. Eiko Matsuda dá credibilidade à história e mantém os olhos dos espectadores em si durante todo o longa-metragem. Infelizmente, sua participação nesse filme trouxe muita hostilidade e representou o fim de sua carreira; ela, inclusive, precisou sair do Japão e se mudar para a França. Tatsuya Fuji, em contrapartida, retomou sua carreira após dois anos.

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