Eu sempre acho difícil escrever sobre adaptações de livros que gosto. Ao mesmo tempo em que é fantástico ver as páginas transpostas para a tela, a visão de outra pessoa sempre será diferente da minha (e haverá aquele detalhe que eu julgo muito importante, mas que ficou de fora). Para completar, esta história já possui uma adaptação que mora no meu coração; embora eu precise admitir que estava na hora de trazer a trama para um público mais jovem.
Este novo Sense and Sensibility mantém o período histórico retratado por Jane Austen e é bastante fiel à história em si, ainda que não seja livre de mudanças (a maior delas, acredito, envolve Eliza, uma personagem que é apenas mencionada). Particularmente, eu me incomodei um bocado com certas escolhas mais “modernas” de cabelo e maquiagem (e um pouco com a “intensidade” das danças nos bailes), mas suponho que são aspectos que fazem sentido para um filme de 2026.
A história é aquela já conhecida. Após a morte do pai, três irmãs ficam à mercê da boa vontade de seu meio-irmão, John Dashwood (Tom Brooke), que possui uma esposa manipuladora e egoísta, Fanny (Stacy Martin). Assim, não demora muito para que as três e sua mãe (Caitríona Balfe) precisem se mudar para um local distante e consideravelmente mais humilde, sendo dependentes de uma parente distante inconveniente, mas bem-intencionada, Mrs. Jennings (Fiona Shaw).
Órfãs e sem dinheiro, as moças precisam lidar não apenas com uma queda no padrão de vida, mas com a perspectiva de que terão menos pretendentes – justamente quando “casar bem” se tornou mais importante. As duas irmãs mais velhas, que já estão na idade de “procurar marido”, lidam com isso de uma forma bem diferente.
Elinor (Daisy Edgar-Jones) é mais pé-no-chão e logo se conforma com a possibilidade de que seu querido Edward Ferrars (George MacKay) tenha um compromisso mais honroso com Lucy Steele (Ceara Coveney). Já Marianne mergulha de cabeça quando encontra um rapaz que tem tudo a ver com ela, Willoughby (Frank Dillane), ignorando tanto sinais problemáticos quanto as atenções de outro cavalheiro, o coronel Brandon (Herbert Nordrum).
Em muitos casos, todo o contexto que ronda as moças seria só uma desculpa para a história se concentrar nos romances. Mas, sob a direção de Georgia Oakley, Sense and Sensibility opta por focar no drama. As esperanças de casamentos vantajosos soam como fantasias juvenis e qualquer interação com um homem é interpretada como uma chance de sair do buraco. É um desespero compreensível.
Concomitantemente, essa escolha faz com que o olhar se concentre no núcleo familiar. A mãe ganha espaço e até mesmo a irmã caçula, Margaret (Bodhi Rae Breathnach), tem personalidade própria. Mas o foco, obviamente, está na dupla formada por Elinor e Marianne – absolutamente diferentes e totalmente cúmplices. Forçadas a dividir um quarto, elas trocam confidências e discutem sem parar, demonstrando seu amor uma pela outra a cada nova reviravolta do destino.
Também preciso acrescentar que tudo isso é retratado de uma maneira muito bonita, com fotografia de Arnaud Potier. A riqueza dos ambientes internos do início da produção contrasta com a conexão das personagens com a natureza e com a iluminação mais intimista vista a partir do segundo terço da história. Também há destaque para “falhas” – rostos sujos, penteados fora de lugar, correrias em vestidos feitos para a sala de estar –, que servem para humanizar as personagens e torná-las mais reais.
Aliás, Sense and Sensibility também se preocupou em deixar seus três personagens masculinos mais relevantes bem diferentes entre si. Por mais que eles talvez tenham perdido tempo de tela com o enfoque dado às irmãs e ao mundo feminino, ainda é possível se encantar com as características individuais de cada um. Ou seja, as mocinhas do lado de cá da tela também poderão se apaixonar, sem problemas.
Claro que ainda é cedo para dizer qual será o impacto e o alcance desse longa-metragem. Mas, considerando o apelo que essa história manteve ao longo do tempo, acho que Sense and Sensibility vai encontrar um público fiel e disposto a rever e reinterpretar Elinor, Marianne e suas desventuras românticas.
Outras divagações:
Sense and Sensibility (1995)

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