Ao ver um filme focado em soldados no campo de batalha, eu acho importante conseguir separar o contexto que levou à guerra da realidade daquelas pessoas. Quando esses elementos se misturam (seja intencionalmente ou não), o resultado é algo diferente; a obra deixa de ser um “filme de guerra” e passa a ser algo mais político – ou simplesmente um comentário sobre a idiotice humana, o que sempre é uma opção.
O detalhe é que Warfare é muito bom em isolar seus personagens de um contexto mais amplo. Eles simplesmente surgem em um mundo hostil e fazem o que podem com as ferramentas que possuem e as circunstâncias que lhes foram dadas. Mesmo assim, eu me senti incapaz de não trazer o momento histórico para a minha interpretação do longa-metragem. Suponho que eu ainda sinto que estes acontecimentos estão muito próximos ou que eu esteja mais preocupada com assuntos políticos ou que talvez não consiga mais acessar a sensibilidade certa para esse tipo de filme dentro de mim.
Em relação à proximidade dos acontecimentos, acho importante notar que a história é embasada nas memórias do próprio diretor e roteirista Ray Mendoza, que compartilha ambos os créditos com Alex Garland. Como enfatizado na própria produção, sempre que possível, ele teve apoio de seus colegas de missão para tentar reconstruir os momentos que eles viveram. A ideia era realmente mostrar como é uma guerra atualmente, explorando um acontecimento que parece inconsequente no quadro geral, mas que também pode ser extrapolado para uma compreensão maior.
Basicamente, Warfare acompanha um pelotão da força especial do exército dos Estados Unidos em uma operação no Iraque realizada em 2006. Sob a liderança de Sam (Joseph Quinn) e, eventualmente, Erik (Will Poulter), eles invadem uma casa e se instalam por lá para acompanhar a movimentação local. Cada um tem um trabalho bem definido, com destaque para Ray (D'Pharaoh Woon-A-Tai), que cuida da comunicação, e Elliott (Cosmo Jarvis), que está com os inimigos na mira, literalmente. Mas a verdade é que a posição deles está comprometida desde o princípio.
Toda essa situação faz com que eu sinta mais ódio do que simpatia (ou empatia). Por mais que os “meninos” sejam soldados altamente treinados, eles ainda são jovens demais e inexperientes demais receberem a responsabilidade de decidirem se alguém vive ou morre. Além disso, eles claramente não estudaram bem o local, escolheram uma posição desvantajosa e foram responsáveis por a arruinar. A maneira como o “outro lado” é retratado também não ajudou nem um pouco.
Mas quero acreditar que os envolvidos na produção de Warfare tinham ciência de que despertariam esse tipo de sentimento, uma vez que eles não parecem fazer muito esforço em afastar essas impressões ou justificar seus personagens. Inclusive, há uma atenção em mostrá-los como um grupo de trabalho, mais do que como amigos, ainda que com certa ênfase de que eles precisam confiar a própria vida uns nos outros. Assim, é justamente quando as coisas complicam que as lealdades começam a se mostrar.
Aliás, a partir do momento em que a operação começa, o filme segue o que seria o “tempo real”. Com esse tipo de construção narrativa, a produção é naturalmente bastante tensa e há pouco espaço para o desenvolvimento emocional dos personagens, mas isso também não impede que haja trechos que exalem monotonia em meio a procedimentos burocráticos. Inclusive, em um grupo funcionando como uma máquina bem engraxada, o novato (Kit Connor) parece estar sempre procurando algo para fazer e sendo levemente inconveniente.
Com isso, Warfare é tecnicamente muito bom e está com todas as suas peças no lugar. É uma história impactante, mas ela também é sofrida de assistir – e pelos motivos errados. Durante os breves 95 minutos de filme, eu me questionei o que aquelas pessoas estavam fazendo ali e o que elas queriam alcançar, mas não obtive respostas. Eram soldados obedecendo ordens cegamente, ao mesmo tempo em que eram peças de algo tão maior que nenhum deles importava individualmente. Cegos e invisíveis.
Outras divagações:
Ex Machina
Civil War

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