Divagações: Mirai no Mirai

As noções de família e de casa são intrinsecamente ligadas na cabeça de uma criança pequena. A minha família, as pessoas que eu amo, são a...

As noções de família e de casa são intrinsecamente ligadas na cabeça de uma criança pequena. A minha família, as pessoas que eu amo, são as pessoas que moram na minha casa. E, é claro, a chegada de um “intruso” abala um pouco essas estruturas.

Mirai no Mirai é a história de um menino que ganhou uma irmãzinha. Kun (Moka Kamishiraishi) tem aproximadamente três anos quando sua mãe (Kumiko Asô) deixa de ser exclusivamente sua e surge na casa uma bebê frágil e delicada, que apenas chora e ainda não sabe brincar. Para completar, as coisas mudam e agora é o pai (Gen Hoshino) quem passa o dia em casa, intercalando cuidados com a bebê, tarefas domésticas e trabalhos na frente do computador.

Passar por tudo isso é muito difícil para o protagonista, que vive essa transformação em sua vida com a ajuda de um subterfúgio mágico: uma árvore em seu quintal que o ajuda a conhecer melhor seus familiares. Entre eles estão uma versão infantil de sua mãe, seu bisavô já falecido (Masaharu Fukuyama) e até mesmo uma versão humana do cachorro da família (Mitsuo Yoshihara) – mas sua maior companheira é uma versão do futuro da própria Mirai (Haru Kuroki). Cada um deles, obviamente, tem algo a ensinar, ainda que o menino esteja realmente mais preocupado com seus trens de brinquedo e sua calça amarela favorita (e, claro, com voltar para casa).

De qualquer forma, ao mesmo tempo em que Kun vive suas aventuras, a família toda passa por mudanças. O casal está em constante atrito devido às mudanças na rotina familiar e toda a responsabilidade que um bebê envolve. A mãe está estressada com as pressões de trabalhar fora. O pai precisa lidar com uma série de novas responsabilidades, para as quais ele não estava preparado. O menino exige atenção das maneiras menos eficientes possíveis. Não é fácil para nenhum dos envolvidos, mas ao menos o cachorro parece estar resignado com a situação.

Mirai no Mirai, ainda que seja focado no imaginário infantil e traga o ponto de vista de Kun – que realmente se comporta (e se move) como uma criança, para o bem e para o mal –, consegue abarcar todo esse contexto de uma maneira bastante delicada e respeitosa. De alguma forma, o diretor e roteirista Mamoru Hosoda faz com que seja possível para o espectador se colocar no lugar de cada uma dessas pessoas, mesmo em situações de conflito direto. É uma empatia construída degrau a degrau.

Aliás, pequenas escadas são elementos importante nessa história. O pai dessa família é arquiteto e ele construiu uma residência muito própria para sua família, com uma série de níveis (a produção contratou um arquiteto de verdade para ajudar a elaborar a casa). As diferenças entre um ambiente e outro, a navegação dos personagens pela casa e até o alcance da visão de cada um é afetado pela construção. No mundo infantil, por exemplo, fica mais fácil perceber o que acontece lá embaixo. Os adultos, por sua vez, têm uma facilidade maior de deslocamento e não parecem olhar duas vezes para a tal árvore mágica.

Dito isso, tendo a acreditar que, no final das contas, Mirai no Mirai é mais um filme para adultos que precisam se lembrar de como é ser criança do que exatamente uma produção para crianças. As fantasias do protagonista são divertidas, mas as mensagens de amadurecimento que elas trazem talvez sejam complexas demais para os pequenos. Os maiorzinhos e adolescentes talvez se irritem um pouco com o comportamento absolutamente infantil (porém adorável à distância) de Kun. Restam, então, as pessoas saudosas de um tempo imperfeito de suas vidas, quando se sentiam (e efetivamente eram) incompreendidas, mas que era muito bom mesmo assim.

Outras divagações:
Samâ uôzu
Ookami kodomo no Ame to Yuki
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