Divagações: Rukku Bakku

Look Back
Com apenas 58 minutos de duração, Rukku Bakku (ou Look Back, como o filme costuma ser divulgado) não pode ser considerado um longa-metragem – a definição oficial coloca um mínimo de 70 minutos. Felizmente, esse blog é meu e eu posso divagar sobre o que eu bem entender.

Com direção e roteiro de Kiyotaka Oshiyama, Rukku Bakku é baseado em uma história de Tatsuki Fujimoto que acompanha uma amizade intensa e improvável vivida por duas meninas. Ayumu Fujino (Yumi Kawai) é uma garota cheia de energia e arrogância, que se acha a maioral por fazer quadrinhos divertidos para o jornal da escola. Kyomoto (Mizuki Yoshida), por sua vez, está reclusa em seu quarto e, em uma tentativa de ter alguma interação com o mundo, também começa a publicar tirinhas no tal jornal.

É justamente no contraste entre essas duas personalidades e suas prioridades que a história se concebe. A qualidade dos desenhos de Kyomoto tanto motiva quanto desincentiva Fujino, que não está acostumada a ter desafios reais. Mas, quando as garotas se conhecem pessoalmente, elas descobrem que podem alinhar seus interesses e criarem algo juntas. No entanto, elas eventualmente se desalinham.

Com isso, Rukku Bakku faz um retrato muito interessante da imaturidade da juventude, de uma amizade entre pessoas falhas e, principalmente, dos momentos que nos constroem. Em meio à obsessão das protagonistas por desenhar – e desenhar cada vez melhor – há comentários aparentemente inocentes, lembranças inesperadas, acasos e toda uma série de nuances que fazem com que as duas se revelem como pessoas muito complexas.

Para completar, isso é acompanhado de um visual que combina muito com as duas personagens. Os cenários são delicados e detalhados, enquanto as pessoas têm linhas simples e de muita expressividade. É uma discrepância que funciona muito bem no conjunto, ajudando a contar a história e, também, mostrando como as coisas (e pessoas) se complementam em suas diferenças.

Outra característica bastante interessante do filme é que ele prefere revelar os sentimentos por meio de detalhes, enquanto as adolescentes raramente falam o que estão verdadeiramente pensando. De um lado, muitas coisas simplesmente não são ditas, gerando bolas de neve de ansiedade e confusão; do outro, as frases claramente contradizem as intenções, fazendo com que tudo seja mais dolorido. É algo bastante difícil de fazer da forma correta, mas o resultado é tão imensamente humano que não acredito que poderia ter sido feito de um jeito diferente.

Dito isso, um ponto que eu talvez não tenha deixado claro até o momento é que Rukku Bakku é uma produção muito melancólica, moldada por ressentimento, mágoa, culpa e luto. Considerando que os nomes escolhidos para as meninas (Fujino e Kyomoto) derivam de metades do nome do autor da história original (Fujimoto), fica evidente que se trata de algo muito pessoal; um aspecto que se torna ainda mais claro quando a trajetória profissional da dupla é comparada à dele.

Para quem gosta de histórias bem contadas, Rukku Bakku é um deleite. Como a complexidade está nas personagens e não exatamente na trama, a produção demanda atenção e comprometimento, mas entrega recompensas de acordo (tudo isso, em menos de uma hora).

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