Embora eu tenha um bom número de livros de Valter Hugo Mãe na minha “lista”, confesso que não tenho muito conhecimento sobre a obra deste autor português. De qualquer modo, fico feliz que o acesso tenha se tornado mais amplo por meio de uma produção tão bonita quanto O Filho de Mil Homens.
Com roteiro e direção de Daniel Rezende, o filme se passa em uma pequena vila litorânea. Como os atores são brasileiros, dá vontade de imaginar que se trata de algum cantinho do nosso litoral, mas também há algo de mágico que faz com que se trate de lugar nenhum ou de qualquer lugar – na verdade, as locações se dividiram entre Búzios (RJ) e Igatu (BA).
Com algumas leves idas e vindas no tempo, O Filho de Mil Homens acompanha diversas histórias que, eventualmente, se cruzam. Crisóstomo (Rodrigo Santoro) é um homem solitário que gostaria de ser pai. Isaura (Rebeca Jamir) é uma moça que foi enganada por um namorado no passado e, agora, está sendo pressionada para se casar. Camilo (Miguel Martines) é um menino criado por um avô cheio de preconceitos. Antonino (Marcello Escorel) é um rapaz homossexual que foi extremamente reprimido. Francisca (Juliana Caldas) é uma mulher com nanismo que está cansada do tratamento que recebe das demais mulheres da vila.
Mas, embora essa sinopse dê a sensação de que muita coisa está acontecendo ao mesmo tempo, O Filho de Mil Homens sabe dar tempo ao tempo. A produção segue um ritmo tranquilo e os diferentes personagens vão sendo introduzidos com sutileza, de modo que as tramas não se confundem. Além disso, como todos acabam tendo um objetivo em comum – poder viver a própria diferença em paz –, os desdobramentos também são naturais.
De maneira geral, tudo é narrado como se fosse uma espécie de fábula, com direito a uma concha que brilha de noite (e, aparentemente, é capaz de realizar desejos) e à maravilhosa voz de Zezé Motta. O cenário “perdido no tempo” do vilarejo, acompanhado por pessoas morando confortavelmente em cavernas, ajuda nessa sensação de que essa é realmente uma história fictícia com uma lição de moral no final.
Com esse tom abertamente fantasioso e a difícil missão de adaptar a sensibilidade da palavra escrita para a tela, O Filho de Mil Homens tem aquele efeito de “filme bonito”, mas sem ser totalmente bem-sucedido. Para começar, eu não recomendaria a produção para alguém que esteja com sono (exceto se o objetivo for dormir: são duas horas embaladas pelo barulho do mar) ou para alguém que prefira um ritmo mais acelerado.
Em resumo, essa é uma produção que demanda atenção sem prometer nada em troca além de si mesma. Ou seja, sem truques para prender o espectador e sem tentar manipular descaradamente suas emoções, ela transmite sua mensagem por meio de atuações caprichadas e de um texto que não subestima a capacidade do público para compreender sutilezas.
O Filho de Mil Homens, definitivamente, não é uma obra destinada a ser um grande sucesso de bilheteria, mas é algo que muitas pessoas vão gostar de degustar lentamente – e de rever.
Inclusive, não sei se essa era a intenção da Netflix com um lançamento em 19 de novembro, mas esse é um longa-metragem que me soa muito natalino. Por mais que não haja nenhuma menção direta ao assunto, a temática se encaixa muito bem com o período (mais do que muitas das produções repletas de árvores e guirlandas), inclusive com várias sequências importantes acontecendo à mesa.
Outras divagações:
Bingo: O Rei das Manhãs
Turma da Mônica: Laços
Turma da Mônica: Lições

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