Divagações: The Drama

The Drama

Vou dar um aviso que eu não costumo dar: essa resenha contém spoilers. Normalmente, tento não discutir pormenores das tramas e, no caso de The Drama – em que o material promocional fez questão de esconder a natureza do titular drama –, acho justo permitir que todos que vão ao cinema tenham igual oportunidade de ter a experiência às cegas. 

Dito isso, não considero (nem de longe) que saber a “surpresa” esgote qualquer aproveitamento do filme. Mas é quase impossível falar sobre a trama sem tocar nesse ponto e sinto que essa também é uma questão que está dominando um pouco o discurso a respeito da obra. Em resumo, se você só quer saber se o filme é bom, eu diria que sim; ele não é sem falhas, mas certamente é um acerto para todos os envolvidos.

Com esse aviso para trás, tenho que dizer que The Drama me chamou a atenção por ser um filme da A24, com atores de peso e com bastante potencial. Ainda assim, ele foi relegado à ingrata posição de abrir a temporada de pós-Oscar, ou seja, daquelas produções que parecem não ter lá muita chance de serem reconhecidas no futuro. Então, eu queria entender o que levou um filme que tem tudo para estar mais bem posicionado a uma situação dessas.

Com todo o marketing pintando o longa-metragem como um tipo de comédia romântica, o filme inicialmente não destoa muito do seu formato “meet-cute”. Charlie (Robert Pattinson) conhece Emma (Zendaya) em uma cafeteria em um daqueles momentos fofos que logo levam para um relacionamento; o casal tem uma vida que parece perfeita e, depois de dois anos de relacionamento, resolvem se casar. Porém, durante um jantar com Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie), amigos do casal, um segredo enterrado da vida de Emma vem à tona, levando Charlie a uma espiral de neurose que coloca o casamento em risco.

Assim, eu sinto que muito do aproveitamento que se tem de The Drama repousa na capacidade da trama em convencer que esse suposto acontecimento é digno de tudo o que ele gera. E o que aconteceu no final das contas? Bem, na sua adolescência, Emma havia planejado um atentado em sua escola, algo que escandaliza tremendamente todos os envolvidos. Entretanto, nada exatamente se concretizou e Emma, literalmente, se transformou em uma ativista antiarmas logo em seguida.

O público estadunidense tem toda a razão para considerar que esse é um assunto polêmico, especialmente porque o diretor e roteirista Kristoffer Borgli é norueguês. Assim, ele não compartilha da mesma reação cultural visceral a esse tipo de coisa em comparação com habitantes de um país que vê esse tipo de tragédia acontecer, em média, uma vez por semana (sim, cifras reais) – um número de ataques que supera em mais de cinco vezes a soma de todos os outros países do mundo juntos. 

Porém, é de se constatar que, tal como Borgli, eu também estou longe de ser um norte-americano. Isso torna as minhas impressões sobre The Drama definitivamente distintas daquela do seu principal público-alvo.

Além disso, Borgli não parece muito interessado em entender os pormenores da coisa; e não exatamente toma partido. É evidente pelos números de que essa é uma questão endêmica nos Estados Unidos, mas o filme levanta esse ponto de maneira tão claramente envergonhada e apologética que chega a me incomodar, especialmente saindo da boca de um personagem que não deveria ser americano e que vê esse assunto com outros vieses. 

Assim, para uma questão que deveria orientar as motivações dos protagonistas do filme, ela é desconfortavelmente superficial. O resultado aliena ainda mais o público internacional, que tem uma relação bem mais distanciada com esse tipo de acontecimento e que, naturalmente, vai ter reações bem menos viscerais do que os personagens da trama – que, muitas vezes, parecem caricaturalmente escandalizados.

Deixando esse ponto de lado, ainda que o xis da questão fosse outro, The Drama não perderia muito do seu mérito. A direção e a edição dão um tom insólito e quase onírico para a trama, o que é bem interessante, dando um caráter visual próprio. 

Além disso, as atuações estão muito sólidas, especialmente por parte de Pattinson, que tem bastante espaço para trabalhar, já tendo se mostrado um baita ator nos últimos anos. Infelizmente, Zendaya não tem a mesma sorte e sofre com uma personagem excessivamente reativa, o que limita suas escolhas e deixa o resultado aquém do seu potencial. Ainda assim, ela entrega nuance o suficiente para se segurar em um tipo de filme que depende unicamente das dinâmicas entre os protagonistas.

Talvez o tom inconsistente do filme incomode (e parte desse efeito é claramente proposital, já que sinto que muito do é feito para ser desconfortável) e a indecisão da produção em se comprometer em ser integralmente uma comédia de humor negro ou um romance meloso deixa seu caráter meio dividido. Isso pode não satisfazer nenhum dos dois lados, mas é justamente por conta do tema polêmico que dá para entender as razões para isso ter acontecido, com o longa-metragem sendo considerado “arriscado”.

Pelo que ele é, The Drama é competente em termos técnicos e definitivamente interessante, com poucas outras obras que entregam uma mistura similar de elementos e gêneros. Eu gostaria de um pouquinho mais de coragem e profundidade, já que o filme constantemente parece querer dizer algo sem nunca exatamente chegar lá, levando-me a pensar que a escolha foi feita só para chocar ou por alguém que não dá o mesmo peso sobre o tema.

Texto: Vinicius Ricardo Tomal
Edição: Renata Bossle

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