Divagações: The Odyssey

The Odyssey

Christopher Nolan é um dos poucos diretores contemporâneos que ainda consegue fazer com que o lançamento de seus filmes sejam verdadeiros acontecimentos. A despeito de serem obras um pouco mais densas e cerebrais do que poderíamos esperar de algo com um apelo popular tão forte, é evidente que há muito apetite pelo tipo de espetáculo que elas proporcionam. 

Essa versão do épico de Homero parecia, desde o seu anúncio, estar tentando casar essas características. Afinal, ela mostra toda a grandiosidade de uma história mitológica seminal, mas sem abrir mão de um bom estudo de personagem, puxando mais da era Oppenheimer do que de blockbusters anteriores do diretor.

Depois da guerra de Troia descrito na Ilíada, The Odyssey vai e volta no tempo. O filme relata tanto os últimos dias da guerra e a famosa artimanha de Odysseus (Matt Damon), rei de Ítaca, para vencer o conflito, quanto o sofrimento da sua esposa Penelope (Anne Hathaway) e de seu filho Telemachus (Tom Holland) que, vinte anos depois, ainda esperam notícias de Odysseus e de sua tripulação. 

Porém com o trono de Ítaca vazio, dia após dia, pretendentes enchem seus salões para cortejar a mão de Penelope. Entre eles, destaca-se Antinous (Robert Pattinson), que tem seus olhos no trono e planeja se livrar de Telemachus o mais rápido possível.

Nesse ponto, digo que eu temia que Nolan fosse “demasiadamente Nolan” e apagasse todos os aspectos abertamente míticos e mágicos dessa história, deixando-a excessivamente no reino do realismo e relegando seus aspectos sobrenaturais a meras metáforas. ainda que isso aconteça um pouco, com as intervenções divinas bem menos escancaradas do que no poema original, vemos abertamente o uso de magia, a existência de criaturas monstruosas e fenômenos inexplicáveis.

Ou seja, por mais que eu aprecie que a caracterização desse mundo seja bastante ancorada na realidade, sem um exagero heroico que filmes como Troy deram ao mesmo período (especialmente na maneira que Troia e Ítaca são retratadas, remetendo a uma Grécia bem mais histórica), o filme não abandona suas raízes mitológicas. 

Para completar, todos esses elementos místicos funcionam bem nesse cenário, tendo algo de insólito na maneira como são retratados: as criaturas são inexplicáveis, a magia é grotesca e visceral e existe um peso real sobre essas coisas que amplifica o drama de Odysseus.

Também acho que Nolan leu algo sobre o direito grego à hospitalidade e conseguiu construir bem toda uma trama que orbita ao redor disso em seus vários núcleos. Ao criar um fio condutor que puxa toda a história, ele dá um significado profundo ao épico, indo além de uma mera celebração dos vitoriosos.

Afinal, é justamente nesse drama que está o cerne. The Odyssey não retrata essa famosa história como uma jornada épica e gloriosa, mas como um martírio de Odysseus, um conflito profundamente pessoal de culpa e expiação. O filme questiona: a guerra de Troia foi vencida, mas a que custo e quanto isso mudou aqueles que voltaram? É um tipo de abordagem que, mesmo enraizada em uma narrativa imemorial, ainda soa fresca e interessante.

Obviamente, é esperado que o filme seja tecnicamente impecável, aproveitando-se bem do formato IMAX. Ainda que eu acredite pessoalmente que Oppenheimer é a melhor exposição de capacidade técnica do diretor até o momento, The Odyssey não fica muito atrás. 

Aliás, este novo filme talvez consiga combinar melhor seus momentos mais grandiosos e explosivos com uma contemplação silenciosa ou uma tensão contida, amplificada justamente pela fotografia e pela direção extremamente competentes. De quebra, há um design de som fenomenal, com uma trilha de Ludwig Göransson à altura da obra.

Ressalvo apenas que Matt Damon não chega a me impressionar no seu papel. No ato final do filme, seu personagem se engrandece um pouco mais e ganha uma presença que não dá para ignorar. Mas durante as primeiras duas horas da produção, eu senti muito mais magnetismo vindo do excelente trabalho de Anne Hathaway, e até mesmo de Tom Holland

Por sua vez, Robert Pattinson tem se mostrado, dia após dia, um ator excepcional e funciona bem como o antagonista. Na verdade, até mesmo o elenco secundário está recheado de excelentes performances, com especial menção a Samantha Morton, que tem uma participação fantástica e visceral como Circe, e a Jon Bernthal como Menelaus, o rei de Esparta.

Mas suponho que parte do meu problema com Damon seja uma questão de roteiro. Em toda a primeira légua da sua jornada, sinto que a agência de Odysseus é bem limitada e – seguindo a tradição grega – ele parece estar à mercê de forças além da sua compreensão e de um destino que ele não pode evitar. Assim, apesar disso se amarrar no final do filme, o personagem não é particularmente interessante.

A produção também tem dificuldades em estabelecer o senso de tempo que a história pede; e essa talvez seja a principal questão que tornava a obra “inadaptável”. O longa-metragem faz o que pode, mas não senti o peso de uma jornada de décadas. Por mais que a travessia deva tomar muitos anos, ela acaba sendo retratada em uma série de vinhetas e acontecimentos. 

Dito isso, não acho que eu precise recomendar The Odyssey. Esse é o tipo de filme que fala muito bem por si só e que atinge as expectativas monumentais que se tinha sobre ele, com as tradicionais ambições de recontar uma história tão milenar. 

Quem se interessa por esse tipo de experiência – especialmente em uma boa sala de cinema –, só poderia se dissuadido por uma recepção tenebrosa, o que certamente não é o caso. Mas, aos que estavam em cima do muro, sim, este é um filme que vale a pena ser visto fora de casa e que faz valer a sua posição de longa-metragem mais esperado da temporada.

Outras divagações:
Batman Begins
Inception
The Dark Knight Rises
Interstellar
Dunkirk
Oppenheimer

Texto: Vinicius Ricardo Tomal
Edição: Renata Bossle

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