Divagações: Saneamento Básico, O Filme

Saneamento Básico, O Filme

Quando Saneamento Básico, O Filme estreou, em 2007, eu era uma leitora assídua da revista SET. Lembro de ter visto uma resenha bem favorável e de ter ficado realmente curiosa em relação à produção, mas acabei não conseguindo ver o longa-metragem nos cinemas. Agora, quase 20 anos depois, essa comédia praticamente adquiriu um status de filme cult e, bom, já havia passado da hora de reparar esse meu erro histórico.

A história se passa em uma pequena comunidade no interior do Rio Grande do Sul, daquelas onde os mais velhos acreditam que são italianos legítimos e vivem saudosos de uma terra que provavelmente nunca conheceram. Os problemas do local, entretanto, são legitimamente brasileiros. Um deles é a ausência de saneamento básico, algo que a população demanda da prefeitura há muito tempo.

Dispostos a resolver a situação, Marina (Fernanda Torres) e seu marido Joaquim (Wagner Moura) vão até a prefeitura com um projeto elaborado por um empreiteiro local (Tonico Pereira). Embora sejam recebidos com a notícia de que não há dinheiro (nem interesse), uma funcionária solidária (Janaína Kremer) traz uma solução alternativa: o município recebeu verba para a produção de um filme de ficção.

Assim, o casal escala a ajuda dos namorados Silene (Camila Pitanga) e Fabrício (Bruno Garcia) para filmar algo sem muitas pretensões, com o objetivo de utilizar a grana para a construção de uma fossa. O projeto, no entanto, vai ganhando forma e passa a demandar tanto o apoio do pai de Marina, o ranzinza e descrente Otaviano (Paulo José), quanto de um ambicioso editor de vídeos vindo de Bento Gonçalves, Zico (Lázaro Ramos). 

Com isso, Saneamento Básico, O Filme vai construindo seu humor tanto por meio da situação absurda vivida pelos personagens quanto pelo processo de produção de um filme absolutamente amador. Afinal, os envolvidos não sabem o que exatamente caracteriza um filme de ficção e nem como escrever um roteiro, quanto mais conceitos como enquadramento, iluminação e edição. Mas eles estão se virando com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão!

Com roteiro e direção de Jorge Furtado, o longa-metragem é cômico e, ao mesmo tempo, crível, pois retrata um problema real e traz uma burocracia convincente. Em meio a diálogos ridiculamente engraçados – vários dos quais acabaram virando memes posteriormente –, os dois casais (e os dois velhos) passam o tempo todo se pinicando, mas estão juntos frente a um inimigo em comum: o fedor que surge no verão. 

Além disso, Saneamento Básico, O Filme mostra uma faceta do humor nacional que precisa aparecer com mais frequência nos cinemas: a capacidade de rirmos de nós mesmos, mas mantendo a capacidade crítica. A sequência em que o prefeito da cidade vai visitar as obras da fossa é um exemplo claro disso (dá raiva, mas eu ri mesmo assim).

Como se a qualidade da produção ainda não fosse suficiente, o longa-metragem também tem um elenco de dar inveja. Explorando os clichês já associados com cada um (além de referências mais cabeçudas), o filme consegue manter sua energia em alta e não deixa a bola cair, sempre trazendo novas reviravoltas.

Ou seja, Saneamento Básico, O Filme merece as atenções que ainda recebe. Quem diria que uma comédia aparentemente despretensiosa e com um título bizarro se manteria relevante por tanto tempo, não é mesmo?

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Quincas Berro D’Água

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