Embora meu conhecimento do idioma japonês não seja lá muito extenso, eu sei o suficiente para saber que Kimi no iro significa algo como “a tua cor”. Porém, assim que esse filme começou, notei logo que havia uma “pegadinha” nesse título, já que há uma personagem chamada Kimi e, portanto, a tradução correta poderia ser simplesmente “a cor da Kimi”.
Mas eu estou me adiantando. Kimi no iro conta a história de Totsuko Higurashi (Sayu Suzukawa), uma menina que estuda em um colégio interno católico exclusivamente feminino e cheio de regras. Embora seja uma pessoa aberta e divertida, ela tem uma característica que faz com que se sinta diferente dos demais: a habilidade ver a cor das pessoas, como uma aura.
A princípio, Totsuko está apenas tentando viver sua fé e se encaixar entre as demais alunas. Entretanto, quando descobre que Kimi Sakunaga (Akari Takaishi) abandou a escola, ela cria uma obsessão pela ex-colega – que possui uma cor muito bonita – e decide investigar o que aconteceu. Em uma reviravolta do destino, porém, Totsuko, Kimi e um menino chamado Rui Kagehira (Taisei Kido) acabam formando uma banda meio inusitada.
Com essa sinopse simples (e que, convenhamos, já se sabe que não vai dar em lugar nenhum), Kimi no iro funciona como um romance de formação fofo, daqueles que proporcionam um quentinho do coração. Elementos como o “segredo” da protagonista e sua religiosidade servem mais para mostrar que a menina tem uma complexidade dentro de si (como todos nós) do que para efetivamente a tornar diferente ou especial.
Neste momento, acho que vale acrescentar que esse é um filme dirigido por Naoko Yamada. Isso fica claro não apenas pelo rigor técnico e pela beleza da animação, mas principalmente pelas temáticas e pela abordagem em si. Ao tratar com naturalidade as esquisitices do comportamento humano (mais especificamente, adolescente), ela cria uma aura de acolhimento e conforto, abrindo espaço para a individualidade em contextos que valorizam a norma e o coletivo.
O problema é que, de maneira geral, Kimi no iro parece ter mais potencial do que sua história é capaz de mostrar. Embora a produção indique complexidades ao apresentar os contextos familiares dos três jovens, estes aspectos ainda surgem com certa leveza e carecem de um aprofundamento maior. Já as temáticas religiosas são trazidas com muito cuidado e de uma forma “respeitosa demais”, o que impede um olhar mais crítico (mas vale observar que as igrejas proporcionam cenários muito bonitos).
No aspecto da animação, o longa-metragem se permite experimentar dentro de certos parâmetros. A iluminação é um recurso bem aplicado, funcionando tanto para ambientações quanto para aspectos mais emocionais, com destaque para as cenas iniciais. Além disso, as proporções e o enfoque também são utilizados narrativamente, colocando os personagens dentro de um mundo que não necessariamente é o deles.
Aliás, ainda que não seja uma daquelas produções de “encher os olhos” com cenários repletos de detalhes, Kimi no iro é caprichado em todos os seus aspectos. Os locais retratados parecem reais, ao mesmo tempo em que não há vergonha de aproveitar recursos inerentes à animação. Isso permite a transmissão de uma sinestesia que não combina apenas com sua protagonista, como também retrata bem a “fuga” buscada pelos adolescentes que se unem com o único intuito de se divertirem por meio da música.
Sem modéstia, Kimi no iro é um filme leve, respeitoso, delicado e acolhedor. Como os grandes dramas são mais sugeridos do que mostrados, há uma sensação de que falta algo, por mais que isso não seja necessariamente verdade. Afinal, o enfoque escolhido foi cuidadosa e intencionalmente direcionado.
Outras divagações:
Tamako rabu sutôrî
Koe no katachi
Rizu to aoi tori

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