Divagações: Loving Vincent

Em plena crise da animação tradicional (aquela desenhada, lembra?), alguém anuncia um filme totalmente feito por meio de pinturas a óleo, ...

Em plena crise da animação tradicional (aquela desenhada, lembra?), alguém anuncia um filme totalmente feito por meio de pinturas a óleo, o que leva o conceito de “quadro-a-quadro” para um outro nível. Para completar, Loving Vincent tem a curiosa premissa de contar a história dos últimos dias da vida do pintor holandês Vincent van Gogh. Vamos combinar que não é todo dia que surge um projeto como esse.

A trama por si só já é bastante interessante. O filme acompanha as desventuras do jovem Armand Roulin (Douglas Booth), que foi encarregado por seu pai (Chris O'Dowd) a entregar a última carta escrita por Vincent van Gogh (Robert Gulaczyk). Porém, ele encontra um problema, o destinatário, Theo van Gogh (Cezary Lukaszewicz), também já faleceu.

Determinado a concluir sua missão de alguma maneira, Armand ouve diversas pessoas pela cidade em uma tentativa de encontrar uma pessoa digna a receber a carta. Cada um tem uma visão diferente sobre quem era o pintor e como foram seus últimos dias de vida, levando o jovem a questionar quem seria o autor do tiro que eventualmente matou Van Gogh (a princípio, ele confessou uma tentativa de suicídio) e, também, a honestidade do médico que cuidou dele, Gachet (Jerome Flynn).

No geral, é esperta a decisão de trazer os acontecimentos conforme aumenta a curiosidade do protagonista, em uma ordem não exatamente linear e com diversos narradores não confiáveis – cada um puxa a sardinha para o seu lado, o que não deixa de ser divertido de acompanhar. Afinal, a história de Vincent van Gogh é repleta de controvérsias e, dessa forma, é possível endereçar algumas das dúvidas que seguem no ar.

Ao mesmo tempo, a jornada do aprendiz de carteiro e o desenvolvimento desse personagem não são, nem de longe, tão interessantes quanto a trama que ele tenta desvendar. Desse modo, o filme é conduzido por um protagonista sem muito carisma e acaba tendo um ritmo lento, algo que – convenhamos – é ajudado pela própria técnica de animação, mesmo que a duração real do longa-metragem seja de apenas 94 minutos.

Não que a animação seja exatamente um problema. O visual do filme é absolutamente fascinante e é ele que faz com que Loving Vincent seja uma boa experiência para quem está em busca de algo diferente. É maravilhoso ver as diversas referências a quadros de Van Gogh, ainda mais considerando que elas se mexem e são exploradas a partir de diferentes ângulos. Nenhuma vai ser exatamente tão bonita quanto um original, mas, bem... Elas têm um propósito distinto e, querendo ou não, são bem mais acessíveis que viagens internacionais e ingressos de museus.

A animação em si também é bem mais fluída e interessante do que eu havia imaginado em um primeiro momento. No total, 65 mil telas foram pintadas por 100 artistas – com as mesmas técnicas de Van Gogh –, mas a produção considera que foram criados 853 quadros a óleo. O motivo da diferença entre os números está no fato de que a animação era feita sobre uma mesma tela, com os artistas fazendo as alterações literalmente no quadro.

Em resumo, Loving Vincent tem um grande mérito por ser o filme mais diferente que você verá em um bom tempo. Ele não tem exatamente grandes méritos narrativos e joga seguro em sua história, mas todo o resto já faz parte de um projeto tão arriscado e maluco que é impossível julgar a dupla de roteiristas e diretores por isso. Aliás, Dorota Kobiela e Hugh Welchman parecem ainda não ter nada engatado para o futuro, mas eu aguardo ansiosamente para o próximo longa-metragem deles.

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