Vez ou outra surge um filme que, sem fanfarra ou pompa, consegue arrancar a força a atenção de quem o assiste. Com uma produção independente (inclusive com um interessante modelo de divisão coletiva dos lucros) e uma história profundamente humana, sem nenhum sinal de cinismo, Sing Sing levanta discussões importantes, especialmente em um cenário de profundas tensões em relação a percepção da população carcerária, sem precisar apelar para proselitismo.
Baseado em um artigo da Esquire de 2005, que continua atual vinte anos depois, o filme explora uma versão um pouco ficcionalizada do programa de reabilitação pelas artes (RTA) implantado na prisão de segurança máxima de Sing Sing, em Nova York. Além disso, a história é contada a partir da ótica de um dos fundadores do programa, John “Divine G” Whitfield (Colman Domingo), que estava encarcerado a mais de vinte anos por um crime que não cometeu.
Especificamente, o longa-metragem foca na produção de uma peça de comédia pensada conjuntamente pelos participantes. Mas ele também explora a chegada de um novo membro ao grupo de atores-prisioneiros, o traficante Clarence “Divine Eye” Maclin (Clarence Maclin).
Nesse cenário, Sing Sing não é apenas um drama bastante competente, mas também nos faz pensar sobre o sistema prisional e qual é o verdadeiro interesse da nossa sociedade em prover uma reabilitação real para os encarcerados. Desta forma, ele não é exatamente um “filme de prisão” na sua forma mais clássica, daqueles que se situa sobre a linguagem de violência e desumanização que se opera dentro das cadeias pelo mundo.
Inclusive, apesar do longa-metragem entender a vida que essas pessoas levaram, nenhum dos retratados tenta se escusar da responsabilidade de seus erros, parecendo existir uma tentativa de (nas palavras do próprio filme) “tornar-se novamente humano”. Isso é especialmente perceptível no caso de Divine Eye, que passa de uma pessoa profundamente marcada pela violência institucional e paranoica com a vida na prisão para alguém capaz de entender e lidar com o outro e com o mundo de modo mais saudável.
Talvez os mais críticos vejam essa falta de foco nas partes cruéis do sistema prisional como uma forma de minimizar os aspectos menos palatáveis; e o mesmo ocorre com a escolha por não mostrar os crimes cometidos pelos personagens e as razões que os levaram até Sing Sing. Mas acredito que essa perspectiva não leva em consideração um ponto levantado pelo filme: essas pessoas querem justamente deixar de serem vistas unicamente pelo momento mais baixo de suas vidas. Eles querem ser percebidos, nem que por um minuto, como atores.
E isso leva a um dos pontos mais interessantes do filme. Grande parte do elenco é composta por ex-membros do RTA, que interpretam a si mesmos. Isso também vale para o roteiro, que tem a contribuição de Clarence Maclin e do verdadeiro John Whitfield. Assim, Colman Domingo é um dos poucos atores profissionais no elenco principal e essa diferença fica bem marcada – mas, como o personagem tem um maior peso dramático, isso não chega a incomodar.
Aliás, a atuação de Domingo é, para mim, uma das performances mais poderosas do ano e a indicação ao Oscar é merecida. Isso também vale para Maclin, naqueles raros casos em que um “não ator” consegue entregar uma atuação muito impactante.
Com uma direção naturalística por Greg Kwedar e uma fotografia que retrata bem os espaços de dentro e fora da prisão, o filme abraça a linguagem da “docu-ficção”. Ainda que se possa fazer algumas críticas sobre o ritmo um pouco lento, a verdade é que a produção engrena depois de um ponto de inflexão e vemos novas perspectivas sobre os personagens e suas dinâmicas, passando a funcionar consideravelmente melhor.
Assim, acredito que Sing Sing alcança bem seu objetivo de dar voz às pessoas que passaram por estas experiências e de mostrar que é mais do que urgente pensarmos nas motivações e intenções do sistema criminal. O longa-metragem não tenta apresentar o teatro como uma solução universal para a criminalidade, mas mostra enfaticamente que encontrar um local de pertencimento, humanidade e dignidade é fundamental para todos, incluindo aqueles que a sociedade quer desumanizar.
Infelizmente, essa não é a opinião de considerável parcela da população e, por isso, acho que Sing Sing não será capaz de convencer os mais punitivistas. Mas, se você acredita no potencial da arte e da humanidade para transformar a vida, esta é uma história bastante potente e que foi uma grata surpresa mesmo em meio a uma temporada de grandes filmes.
Texto: Vinicius Ricardo Tomal
Edição: Renata Bossle
Baseado em um artigo da Esquire de 2005, que continua atual vinte anos depois, o filme explora uma versão um pouco ficcionalizada do programa de reabilitação pelas artes (RTA) implantado na prisão de segurança máxima de Sing Sing, em Nova York. Além disso, a história é contada a partir da ótica de um dos fundadores do programa, John “Divine G” Whitfield (Colman Domingo), que estava encarcerado a mais de vinte anos por um crime que não cometeu.
Especificamente, o longa-metragem foca na produção de uma peça de comédia pensada conjuntamente pelos participantes. Mas ele também explora a chegada de um novo membro ao grupo de atores-prisioneiros, o traficante Clarence “Divine Eye” Maclin (Clarence Maclin).
Nesse cenário, Sing Sing não é apenas um drama bastante competente, mas também nos faz pensar sobre o sistema prisional e qual é o verdadeiro interesse da nossa sociedade em prover uma reabilitação real para os encarcerados. Desta forma, ele não é exatamente um “filme de prisão” na sua forma mais clássica, daqueles que se situa sobre a linguagem de violência e desumanização que se opera dentro das cadeias pelo mundo.
Inclusive, apesar do longa-metragem entender a vida que essas pessoas levaram, nenhum dos retratados tenta se escusar da responsabilidade de seus erros, parecendo existir uma tentativa de (nas palavras do próprio filme) “tornar-se novamente humano”. Isso é especialmente perceptível no caso de Divine Eye, que passa de uma pessoa profundamente marcada pela violência institucional e paranoica com a vida na prisão para alguém capaz de entender e lidar com o outro e com o mundo de modo mais saudável.
Talvez os mais críticos vejam essa falta de foco nas partes cruéis do sistema prisional como uma forma de minimizar os aspectos menos palatáveis; e o mesmo ocorre com a escolha por não mostrar os crimes cometidos pelos personagens e as razões que os levaram até Sing Sing. Mas acredito que essa perspectiva não leva em consideração um ponto levantado pelo filme: essas pessoas querem justamente deixar de serem vistas unicamente pelo momento mais baixo de suas vidas. Eles querem ser percebidos, nem que por um minuto, como atores.
E isso leva a um dos pontos mais interessantes do filme. Grande parte do elenco é composta por ex-membros do RTA, que interpretam a si mesmos. Isso também vale para o roteiro, que tem a contribuição de Clarence Maclin e do verdadeiro John Whitfield. Assim, Colman Domingo é um dos poucos atores profissionais no elenco principal e essa diferença fica bem marcada – mas, como o personagem tem um maior peso dramático, isso não chega a incomodar.
Aliás, a atuação de Domingo é, para mim, uma das performances mais poderosas do ano e a indicação ao Oscar é merecida. Isso também vale para Maclin, naqueles raros casos em que um “não ator” consegue entregar uma atuação muito impactante.
Com uma direção naturalística por Greg Kwedar e uma fotografia que retrata bem os espaços de dentro e fora da prisão, o filme abraça a linguagem da “docu-ficção”. Ainda que se possa fazer algumas críticas sobre o ritmo um pouco lento, a verdade é que a produção engrena depois de um ponto de inflexão e vemos novas perspectivas sobre os personagens e suas dinâmicas, passando a funcionar consideravelmente melhor.
Assim, acredito que Sing Sing alcança bem seu objetivo de dar voz às pessoas que passaram por estas experiências e de mostrar que é mais do que urgente pensarmos nas motivações e intenções do sistema criminal. O longa-metragem não tenta apresentar o teatro como uma solução universal para a criminalidade, mas mostra enfaticamente que encontrar um local de pertencimento, humanidade e dignidade é fundamental para todos, incluindo aqueles que a sociedade quer desumanizar.
Infelizmente, essa não é a opinião de considerável parcela da população e, por isso, acho que Sing Sing não será capaz de convencer os mais punitivistas. Mas, se você acredita no potencial da arte e da humanidade para transformar a vida, esta é uma história bastante potente e que foi uma grata surpresa mesmo em meio a uma temporada de grandes filmes.
Texto: Vinicius Ricardo Tomal
Edição: Renata Bossle
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