Divagações: Kiss of the Spider Woman

Kiss of the Spider Woman

Faz algumas horas que eu assisti a Kiss of the Spider Woman, mas ainda está difícil colocar no papel como eu me sinto em relação a esse filme. A princípio, o projeto é muito interessante e a história também me atrai, mas sigo tendo dificuldades em processar musicais que lidam com temas tão pesados e tão delicados, ainda mais quando isso é feito de uma forma mais séria, sem espaço para sátira ou para rir de si mesmo.

A história se passa na Argentina, pouco antes do fim da ditadura militar no país. Valentín Arregui (Diego Luna) é um preso político que está resistindo à violência da prisão ao se concentrar nos estudos. Entretanto, isso se torna mais difícil com a chegada da tagarela Luis Molina (Tonatiuh), uma mulher trans condenada por importunação sexual. Mas, com a convivência forçada, eles se aproximam.

Um dos destaques dessa amizade é que, todas as noites, Molina conta um pouquinho da história de seu filme favorito, estrelado por Ingrid Luna (Jennifer Lopez). Na trama dentro da trama, dois homens (Luna e Tonatiuh) competem pela atenção de Aurora (Lopez), uma mulher empoderada, mas que não consegue se comprometer verdadeiramente por ser vítima de uma maldição.

Assim, grande parte do aspecto musical de Kiss of the Spider Woman está concentrado na narrativa de Molina que, apesar de ser repleta de clichês e breguices, eventualmente também funciona como uma alegoria ao momento dos dois personagens na prisão. Com isso, a maior parte das músicas está descoladas da história principal e possui um tom bem contrastante.

Obviamente, as discrepâncias são propositais, visando trazer algum charme e leveza para um longa-metragem que aborda temas complexos. Nesse sentido, Tonatiuh definitivamente fez o seu melhor e segurou a produção, conseguindo se destacar em meio a um elenco de nomes mais facilmente reconhecíveis. Além disso, a disparidade visual entre a opressão da cela e a extravagância hollywoodiana também garante um resultado interessante.

Contudo, isso não impede que Kiss of the Spider Woman ainda pareça desconjuntado, como se estivesse faltando uma cola mais forte entre as partes. A princípio, o filme tem uma duração similar à montagem teatral (com pouco mais de duas horas de duração), mas fiquei com a sensação de que muita coisa foi cortada – após uma busca rápida, descobri que havia mais canções na cadeia, em uma escolha que realça o contraste, mas tem seu preço. 

Para completar, por mais que seja divertido (e impressionante) ver Jennifer Lopez dançando, senti que isso talvez tenha mais destaque que o necessário. De qualquer modo, aproveito para colocar que, se alguém tiver receio em relação às habilidades dela como atriz, dá para manter a tranquilidade. Como a personagem se restringe ao mundo exagerado de fantasias e ilusões, possíveis canastrices não atrapalham.

Com roteiro e direção de Bill Condon, Kiss of the Spider Woman é bem produzido e, definitivamente, traz algo de diferente para os cinemas neste começo de 2026. Como uma pessoa que gosta de musicais, fico feliz que mais uma opção tenha chegada às telonas, mas sinto que os elementos destoantes não me convenceram completamente. Sinceramente, fico curiosa para saber como uma equipe totalmente argentina teria contado essa história (por enquanto, suponho que o mais perto disso que temos é a produção de 1985).

Outras divagações:
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