Divagações: Marty Supreme

Marty Supreme

Em 2019, Josh Safdie adquiriu certa notoriedade com Uncut Gems, o que colocou vários olhos e um bocado de ânimo em seu próximo projeto em parceria com a A24. Com Timothée Chalamet liderando o elenco (em sua aposta anual na disputa pelo Oscar), Marty Supreme está posicionado para bater de frente com One Battle After Another, já que ambos dividem algumas semelhanças tonais e uma energia frenética.

Vagamente baseado em uma versão ficcionalizada da vida de Marty Reisman, o longa-metragem traz Marty Mauser (Chalamet). No início da década de 1950, ele tenta ganhar a vida como atleta profissional de tênis de mesa em um cenário onde ninguém o respeita, o dinheiro é curto e a vida é complicada. 

Porém, Marty também não é nenhum santo. Metido em todo o tipo de trambique, mas orgulhoso e com uma opinião muito inflada de si mesmo, ele vive aos trancos e barrancos tentando se mostrar como o melhor do mundo. E ele estava muito perto de conseguir seu objetivo – até a chegada dos japoneses no cenário internacional e, com eles, de um golpe monumental ao seu ego. 

É importante ressaltar que Marty Supreme está longe de ser uma biografia ou um filme de esporte tradicional. Embora assuma esse papel em alguns momentos, a produção ocupa boa parte da sua duração com as desventuras de Marty. 

Ele está sempre tentando arranjar dinheiro para suas competições ou lidando com seu relacionamento problemático com Rachel (Odessa A'zion), sua amiga de infância que engravida logo no início da trama. Isso sem contar a presença de Kay Stone (Gwyneth Paltrow), uma estrela de cinema decadente e com um marido milionário que tem o potencial de ser um grande benfeitor para Marty.

Com uma energia frenética, o filme tem uma direção sólida e que não para um segundo sequer, além de uma atuação bastante enérgica de Chalamet, que incorpora bem essa compleição neurótica e histriônica do personagem com uma bravata quase infinita. Inclusive, essa parece ser a primeira grande performance do ator, indo por um caminho diferente do que ele vinha se apoiando até então.

Assim, Marty Supreme tem qualidades difíceis de se negar, mas sinto que seus personagens, mesmo que bem desenvolvidos, fazem com que seja um pouco difícil se conectar emocionalmente com a história. Isso ocorre porque este é o tipo de filme em que todo mundo é absolutamente terrível e sem muitas características redimíveis, fazendo com que seja complicado efetivamente torcer pelo protagonista.

Não me entenda mal. Há histórias cheias de gente ruim que funcionam bem, mas tem algo de estranho na maneira como o longa-metragem quer genuinamente redimir Marty “de supetão”, bem a tempo para o último ato, fazendo com que o público se importe com sua vitória ou derrota quando voltamos a falar de tênis de mesa. Essa virada de chave é brusca e pouco merecida, ainda que seja suficientemente justificada pela trama para não sentirmos (tanto) o coice da transição.

Também sinto que o filme se beneficiaria de um pouco mais de foco. Com duas horas e meia de duração (que se perdem em uma dezena de digressões), Marty Supreme vai e volta de subtramas que, embora interessantes, acrescentam pouco. Acredito que pelo menos uma delas poderia ser cortada sem prejuízo; talvez até com certos ganhos. Afinal, mesmo usando todo o tempo do mundo nestas tangentes, a produção simplesmente termina sem nenhuma cerimônia quando as coisas engrenam, o que me soa como um grande desperdício.

Como eu disse, as qualidades do filme são inegáveis: seus temas são interessantes, sua recriação de época é bem convincente e Chalamet está muito bem – porém, faltam elementos para transformar Marty Supreme em algo especial ou mais significativo. Ainda assim, esta talvez seja a estreia mais forte deste começo de ano e vale toda a atenção que vem recebendo.

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