As pequenas coincidências da vida. No mesmo dia em que assisti Train Dreams (faz tempo), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou que o fotógrafo brasileiro Adolpho Veloso estava entre os pré-selecionados para o Oscar por seu trabalho neste filme. Faz sentido, já que a produção mostra florestas – inteiras e devastadas –, vilarejos, igrejas, neve e incêndios. Tem de tudo um pouco, mas sempre com muita beleza.
Baseado em um livro do aclamado escritor Denis Johnson, o longa metragem foi escrito e dirigido por Clint Bentley, que assina o texto ao lado de Greg Kwedar (repetindo a parceria do roteiro de Sing Sing). Ou seja, a produção já nasceu com as credenciais certas para participar da temporada de premiações, ainda que (na minha humilde opinião) faltem outros elementos para garantir um destaque real.
De qualquer modo, Train Dreams acompanha a trajetória de um homem branco comum que está tentando construir a vida nos Estados Unidos durante a primeira metade do século 20. Robert Grainier (Joel Edgerton) é um cara quietão e sem família, mas que trabalha duro, é leal aos seus amigos e que ganha uma chance de ser feliz ao conhecer Gladys (Felicity Jones).
Ainda assim, o casamento tem suas dificuldades, pois ele precisa se afastar de casa por longos períodos para trabalhar na abertura de novas estradas de ferro. Quando o casal finalmente desenha novos planos, no entanto, uma reviravolta afeta mais uma vez o destino de Robert, que precisa encontrar novos caminhos para poder seguir em frente.
Ou seja, Train Dreams é um dramalhão – com direito a uma constante narração feita por Will Patton. Para quem está a fim de um longa-metragem reflexivo e muito bonito, acredito que essa é uma boa pedida. A trama envolve uma série de clichês do gênero, mas também escapa de alguns caminhos fáceis para se manter fiel ao protagonista. Em especial, destaco as breves cenas envolvendo Zoe Rose Short e os momentos após a chegada de Claire Thompson (Kerry Condon).
Além disso, por se tratar de um “estudo de personagem” – acompanhando Robert desde a infância até a velhice –, a produção é uma excelente oportunidade para Joel Edgerton mostrar profundidade, embora o tom soturno do protagonista traga certas dificuldades neste quesito. Nesse mesmo sentido, todos os demais membros do elenco surgem apenas em virtude das interações de seus personagens com ele, sem muitas chances de aprofundamento ou performances marcantes.
Dito isso, confesso que tive dificuldades para me conectar com Train Dreams. Talvez eu esteja calejada e sem muita paciência para esse tipo de história e/ou protagonista, mas a verdade é que faltou um elemento que realmente me cativasse, o que é algo bem pessoal. Imagino que um maior espaço para Felicity Jones e/ou Kerry Condon poderia resolver esse problema, mas daí teríamos um filme bem diferente.
Ao mesmo tempo, não posso negar que que a produção tem algo de poético, mas que não necessariamente deriva da atuação. Além da narração onipresente e da bela fotografia, Train Dreams tem cenários muito bem escolhidos e uma trilha sonora quase quieta, mas eficiente, que traz algo de etéreo para o sofrimento alheio.

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