Antes mesmo do primeiro ator aparecer na tela, Sawt Hind Rajab já deixa claro que o que você está prestes a assistir será emocionalmente pesado. A produção não é exatamente um documentário, mas se define como uma dramatização de acontecimentos reais, com direito ao uso de áudios originais e até mesmo de imagens das pessoas que viveram aqueles momentos. Quando os créditos finais começaram a subir, confesso que eu estava até um pouco enjoada.
A história acompanha um grupo de voluntários que trabalha em uma central de emergências em Tel Al-Hawa, na parte sul da faixa de Gaza. Vários deles já estavam se preparando para encerrar o expediente quando Omar A. Alqam (Motaz Malhees) atende uma chamada um pouco estranha. Era um tio, diretamente da Alemanha, pedindo ajuda para sua sobrinha, que estava presa em um carro na zona de conflito, ao norte. Quando consegue entrar em contato, o voluntário ouve um tiroteio e percebe que a moça morreu enquanto falava com ele.
Por si só, esse momento já é traumatizante. Omar vai até sua supervisora, Rana Hassan Faqih (Saja Kilani), e chega a conversar brevemente com a psicóloga da instituição, Nisreen Jeries Qawas (Clara Khoury). Quando ele volta para a sua mesa, entretanto, é recebido por mais uma notícia chocante: uma menina de seis anos ainda está no carro. Ele liga e ela atende o telefone, implorando para que alguém vá buscá-la. É possível ouvir tiros. Entra em cena Mahdi M. Aljamal (Amer Hlehel), responsável por negociar uma rota segura para a ambulância com a ajuda da Cruz Vermelha e do governo palestino.
Então, Sawt Hind Rajab passa a ser o relato de momentos desesperadores. Ao mesmo tempo em que tentam identificar se a menina está bem, Omar e Rana também tentam mantê-la calma e distraída enquanto o socorro não chega – afinal, trata-se de uma criança presa em um carro, acompanhada por diversos corpos e com uma guerra acontecendo lá fora. A missão se torna ainda mais difícil com o passar do tempo, pois os adultos sucumbem ao desespero, colocando bastante pressão sobre o trabalho já delicado de Mahdi.
A princípio, este é um longa-metragem similar a outros que retratam situações de tensão, com um ambiente aparentemente estéril se tornando palco de algo muito maior e pessoas comuns entrando em conflito apesar de terem um único objetivo, precisando reunir forças sabe-se lá como e de onde. Mas essa não é exatamente uma ficção e a voz que estamos ouvindo é realmente de uma menina pedindo ajuda. Com o decorrer do filme, o efeito disso pesa cada vez mais.
Para completar, a diretora e roteirista Kaouther Ben Hania sabe como amplificar essa sensação. Aos poucos, os movimentos de câmera começam a ficar mais erráticos, mais agitados e, em algum ponto, as imagens ficam até um pouco borradas. Ela conta sua história como se a imagem estivesse em consonância com os personagens. Ao final, quando finalmente saímos da sala da central telefônica, a imagem da tragédia – real, mas inacreditável – justifica o desespero.
Sawt Hind Rajab não é uma produção fácil de assistir, mas é um daqueles filmes necessários, pois a guerra e a matança de inocentes não é algo que possa ser ignorado; é preciso fazer doer na humanidade. Felizmente, o longa-metragem tem conquistado certo espaço, com participações (e prêmios) em diversos festivais, além de ser o representante da Tunísia na edição do Oscar deste ano. E, mesmo que a agenda seja ignorada, acredito que ele merece o reconhecimento, pois se trata de uma produção de muita qualidade.

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