Divagações: Wuthering Heights

Wuthering Heights

Quando contei para uma amiga que estava prestes a assistir Wuthering Heights, ela disse que estava com receio de como seria essa nova adaptação. Eu entendi bem, afinal, também estava. 

Para começar, a produção tem roteiro e direção de Emerald Fennell – uma cineasta com um ponto de vista e uma estética bem demarcados. Depois, há a questão da escalação de Jacob Elordi para um personagem não-branco (esse é um ponto bastante debatido academicamente, pois o livro não é muito explícito). E, por fim, as fotografias divulgadas traziam figurinos bastante coloridos e que não condiziam com o período em que a história se passa.

Com tudo isso em mente, já fica claro que Wuthering Heights não procura ser uma adaptação ao pé da letra – se é isso o que você busca, há outros filmes por aí. Para começar, já adianto que uma parte significativa da história foi cortada e que o resultado é absolutamente centrado em Cathy (Margot Robbie), seus amores e seus dilemas. Em retrospecto, isso faz bastante sentido com o histórico de Emerald Fennell.

O filme começa explorando a infância dos protagonistas (Charlotte Mellington e Owen Cooper), que enfrentam uma vida restrita em uma propriedade decadente, sob a violenta tutela do pai dela (Martin Clunes) e o olhar calculado da dama de companhia, Nelly (Hong Chau). Enquanto Cathy é a menina da casa – tão mimada, inocente e iludida quanto possível nessas circunstâncias –, Heathcliff (Jacob Elordi) é parte criado, parte da família, em uma posição ambígua que se reflete no desenvolvimento de seu relacionamento com Cathy.

Nesse contexto, a chegada do rico Edgar (Shazad Latif) e de sua protegida Isabella (Alison Oliver) à propriedade vizinha traz um misto de esperança e desespero. Consequentemente, não demora muito para que fantasias já fragilizadas sejam devidamente rompidas; apenas para serem substituídas por outro tipo de miragem. 

Wuthering Heights mostra a que veio especialmente a partir desse ponto. Sai de cena a construção delicada de personagens em um contexto de romance gótico e entra a bizarrice trazida pelo dinheiro, pela ambição e pelo desejo, temas que a cineasta gosta de trabalhar com o exagero que eles merecem. Se Cathy já era mais vibrante do que a paisagem ao seu redor, a abundância apenas a alimenta e, por algum tempo, ela se perde até voltar a se encontrar. Este é, sem dúvida, um filme de 2026; favor não confundir com o livro de 1847.

Aliás, um dos motivos que garantem que a produção se sustente em pé é a energia que Margot Robbie confere à protagonista. Mesmo que Cathy seja insuportável em vários momentos, ela segue sendo absolutamente cativante. No final das contas, não é difícil entender por que todos os demais personagens são automaticamente atraídos por ela (com a possível exceção de Nelly, que tem suas próprias questões). 

Em uma trama onde todos são absolutamente falhos e correm como loucos na direção de uma tragédia iminente, Cathy gera um sentimento muito específico no público, pois sua força é realmente admirável. Em uma casa caindo aos pedaços, ela é sinônimo de vivacidade. Em uma vida de mentirinha, ela se recusa a ser uma boneca.

Com certeza, Wuthering Heights é um filme interessante e bem construído, mostrando-se um bom veículo para cada um dos envolvidos entregar o que sabe fazer de melhor; não apenas os atores, mas toda a equipe criativa. Os cenários – internos e externos – são maravilhosos e trágicos, ajudando a contar a história de múltiplas maneiras (algumas bem criativas). A trilha sonora é de gelar os ossos (no bom sentido) e os figurinos deixam qualquer um aturdido, na falta de uma palavra melhor.

Ainda assim, eu não sei bem o que dizer quando mais alguém vier confessar que tem receio dessa nova adaptação. Wuthering Heights é uma releitura próxima o suficiente da obra de Emily Brontë e, ao mesmo tempo, bastante distante. É um filme de encher os olhos e os atores principais estão perfeitos. Mas essa, definitivamente, é uma produção feita para mexer com – leia-se, incomodar – o público moderno e as sensibilidades atuais.

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