De vez em quando, eu me arrependo da decisão de usar aqui no blog os nomes dos filmes em suas línguas originais, conforme a grafia do Internet Movie DataBase (IMDb). Acho que não é difícil entender esse sentimento com Affeksjonsverdi – caso você não saiba norueguês, o significado é bem similar ao título nacional: Valor Sentimental.
Com nove indicações ao Oscar – quatro delas em categorias de atuação, que dependem de muitos votos –, a produção é a principal concorrente de O Agente Secreto na disputa pela estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Naturalmente, eu resolvi conferir do que se trata.
Basicamente, Affeksjonsverdi envolve um pai, duas filhas e uma casa. A construção, que tem lá seus próprios problemas, está na família há gerações e nenhuma das duas futuras herdeiras tem capital para adquirir a parte da outra, de modo que ambas já estão resignadas à ideia de que o local onde foram criadas será vendido.
Nora Borg (Renate Reinsve) é a filha mais velha, que aparenta ter um apego maior à casa e um ressentimento incomensurável em relação ao pai, Gustav (Stellan Skarsgård), com quem não conviveu muito após a infância. Ela também é uma atriz em crise e uma mulher em depressão, o que demanda um pouco de atenção de sua caçula, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), que parece ter construído uma vida mais estruturada para si, com direito a marido e filho.
Os três passam a conviver de maneira mais próxima após a morte da mãe das duas, a última moradora da casa. Antes da venda, entretanto, Gustav pretende fazer um filme no local e convida Nora, que recusa. Assim, para interpretar uma personagem que talvez seja baseada em sua própria mãe, ele chama uma atriz em alta, Rachel Kemp (Elle Fanning).
Com isso, Affeksjonsverdi explora a dinâmica entre os personagens e a própria formação de personalidade de cada um, com direito a pequenos vislumbres de tempos passados – e a traumas que se interlaçam. Enquanto a produção do filme de Gustav avança praticamente sem interferência das protagonistas, o que interessa mesmo é a forma como as irmãs lidam com esse retorno paterno e com as inevitáveis mudanças trazidas pelo tempo.
Neste sentido, a presença de Rachel funciona como um interessante contraponto entre os segredos da identidade familiar e o mundo externo. Não importa se ela é uma excelente atriz ou uma pessoa sensível (ou nada disso), pois nunca será parte de algo que não viveu. O filme, inclusive, consegue fazer com que Elle Fanning seja visualmente destoante do resto do elenco; mesmo sendo uma pessoa muito branca em plena Noruega.
Com essa construção cuidadosa e um elenco de qualidade, não é à toa que Affeksjonsverdi tenha chamado atenção. O diretor e roteirista Joachim Trier (que assina o texto ao lado de Eskil Vogt), consegue apresentar essa história cheia de ressentimentos, orgulhos, vínculos e segredos sem exagerar na carga dramática e sem desumanizar seus personagens.
E, veja bem, eu ainda nem mencionei que há toda uma questão envolvendo a 2ª Guerra Mundial, com tortura, traição e, posteriormente, lesbianismo. Todos esses elementos estão no filme e ajudam na compreensão da mensagem principal, ainda que sirvam mais para a construção do mistério que circunda o filme dentro do filme.
Affeksjonsverdi é uma produção delicada e que tem o coração no lugar certo (além de todos os elementos técnicos). Com certeza, é um filme que merece destaque na temporada de premiações. Mas, infelizmente, ele não terá a minha torcida nesse ano.

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