Para quem não está muito ligado no cenário cultural do outro lado do planeta, All You Need is Kill é baseado em um livro publicado em 2004 que fez um certo burburinho, recebendo uma versão em mangá ilustrada por Takeshi Obata (famoso por Death Note). Além disso, também houve uma adaptação hollywoodiana surpreendentemente sólida em 2014, que tem um dos títulos mais genérico da história: Edge of Tomorrow. E antes que vocês me critiquem, All You Need is Kill é, sim, um nome meio brega, mas pelo menos é difícil de esquecer.
Apesar de ter todo um reconhecimento da indústria, All You Need is Kill nunca recebeu um anime, então, fiquei surpreso em ver que, mais de vinte anos depois do lançamento, a obra ganha uma releitura em longa-metragem. A produção é do Studio 4°C, que andava meio sumido nos últimos tempos, mas que é um daqueles estúdios que mantém boas relações com a Warner até hoje, tendo produzido curtas de Animatrix e longas da Justice League.
Quando digo que é uma releitura, quero apontar que esta adaptação talvez seja até menos fiel do que a versão estrelada por Tom Cruise. O filme abandona o visual sujo e militarista que está presente em todos seus antecessores em prol de um estilo bombástico, chapado e colorido, que carrega a estética chamativa do estúdio. As diferenças não se limitam ao visual: há poucos elementos narrativos do original, restando os nomes dos personagens, a premissa central e só.
Em um futuro próximo, uma estranha e colossal “árvore” alienígena chega à Terra, chamada Darol. Apesar dos estragos causados pelo impacto, ela logo entra em um estado dormente, virando parte da paisagem cotidiana. Neste cenário, Rita (Ai Mikami) é uma das voluntárias que atuam na remoção das raízes, passando seus dias em uma relativa apatia e sem conseguir escapar dos traumas de seu passado.
Entretanto, no aniversário de sua chegada, Darol desperta e lança “sementes” que contêm criaturas agressivas e destrutivas, que prontamente atacam Rita. Ela, porém, não morre; em vez disso, desperta no início do dia com todas as suas memórias intactas. Neste processo de repetir o mesmo dia, Rita conhece Keiji (Natsuki Hanae), um engenheiro que parece sofrer da mesma condição. Juntos, eles entram em uma jornada para escapar desse ciclo e parar a destruição trazida por Darol.
Ao invés de focar na ação, All You Need is Kill parece mais interessado em pensar um pouco mais nos personagens e na maneira como o ciclo de ressurreição parece ser ligado aos seus próprios traumas. Ou seja, é aquela velha história presente em Groundhog Day: você não vai conseguir escapar até aprender a seguir em frente de uma forma mais interior.
Por conta disso, o filme até dedica um tempinho para lidar com o passado de seus personagens, entretanto, não sinto que ele faz isso bem o bastante para que seja emocionalmente carregado. Mesmo assim, posso dizer que Rita é bem mais interessante nessa versão do que em qualquer uma das outras que eu tive contato.
Com menos de uma hora e meia de duração, a produção não é exatamente enxuta, mas magra demais para o seu próprio bem. Os primeiros dois atos são bastante satisfatórios, mas All You Need is Kill realmente tropeça na hora de fechar a sua história e, de uma hora para a outra, surge um senso de urgência completamente arbitrário e que se desenrola em um desfecho pouquíssimo catártico – uns 10 ou 15 minutos a mais poderiam fazer maravilhas.
Nesse caso, culpo um pouco Ken'ichirô Akimoto, um diretor pouco experiente dentro do 4°C e que nunca tinha ficado responsável por um projeto desse tamanho. Além disso, o estúdio parece ter dividido recursos para a continuação de Entotsu Machi no Poupelle (que deve sair no mês que vem), o que não ajuda muito.
Por um lado, fico feliz que All You Need is Kill esteja recebendo uma chance nos cinemas ocidentais em vez de ficar fadado à obscuridade; por outro, este não é um filme particularmente forte e sinto que poderia ser consideravelmente melhor. Não tiro os méritos dessa versão: o visual é muito bonito e expressivo (e as artes de background são legitimamente impressionantes) e aprecio que ele tentou fazer a sua própria coisa, mas faltou um pouco de fôlego para realizar suas ambições criativas.
O que resta é uma obra que morre na praia. Se você gostou do filme com Tom Cruise ou leu o mangá, indico pela abordagem diferente. Mas a verdade é que essa história já foi melhor executada antes e é justamente nesse tipo de situação que não precisamos repetir a aventura mais uma vez.Outras divagações:
Edge of Tomorrow
Texto: Vinicius Ricardo Tomal
Edição: Renata Bossle

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