Meu aspecto favorito de qualquer obra de ficção-científica é a exploração das consequências sociais e políticas em resposta ao elemento fantástico que situa a história no gênero: teletransporte, robôs ou viagens intergaláticas – é sempre interessante ver para onde vai a imaginação dos autores quando introduzimos essas variáveis à nossa sociedade. Não é à toa que minhas obras favoritas do gênero são vastos tratados de construção de mundo que levam em conta os efeitos complexos causados por estes fatores.
Disclosure Day deveria, então, estar na minha praia, já que o longa-metragem parecia estar muito pouco interessado nas sensibilidades “blockbusterescas” de filmes de invasão alienígena em que os marcianos destroem cidades inteiras com seus raios cósmicos. A pergunta aqui é simples: o que aconteceria com a humanidade se fosse revelado que os alienígenas não apenas existem, mas que foram sistematicamente encobertos pelos governos mundiais por várias décadas?
Porém, o que Steven Spielberg entrega é algo bem menos cerebral e interessante do que essa proposição. Ele retorna aos gracejos daquele diretor do início dos anos 2000 que, mesmo interessado no gênero, nunca foi capaz de produzir algo que capturasse o que há de mais interessante e fundamental em uma ficção científica. São coisas que, a despeito da apresentação competente e da proeza técnica, não conseguem ser estimulantes narrativamente ou conceitualmente.
Esses vieses se cristalizaram na extremamente autoindulgente direção de Ready Player One, que é um sci-fi todo estilo e zero substância. Achei que, com Disclosure Day, Spielberg teria aprendido a lição, mas não é o caso. Genuinamente, fico espantado ao ver uma recepção tão positiva para esse filme, quando ele parece ter vindo diretamente daquela fase de J.J. Abrams com excesso de lens flare; ou seja, esta é uma produção profundamente ordinária.
Começando como um thriller de espionagem, Disclosure Day inicialmente acompanha o Dr. Daniel Kellner (Josh O'Connor), um aparente mestre da cibersegurança em fuga da Wardex, uma organização cujo verdadeiro propósito é ocultar a presença de alienígenas no planeta Terra.
Liderado por Noah Scanlon (Colin Firth), esse grupo tenta recuperar a todo custo os arquivos que foram roubados por Kellner, inclusive sequestrando sua namorada, Jane Blankenship (Eve Hewson), como forma de extorquir o especialista.
A situação se complica quando, do outro lado do país, uma jornalista ambiciosa, Margaret Fairchild (Emily Blunt), começa a presenciar fenômenos esquisitos e manifestar estranhas capacidades. Esses “sintomas” a levam diretamente à mira da Wardex e ao encontro com Kellner.
Por essa sinopse, já dá para ver que Disclosure Day passa bem mais tempo preocupado com correria e conspiração do que discutindo as questões filosóficas que fundamentaram o seu marketing. Isso não seria exatamente um problema se a conspiração e a correria fossem legitimamente empolgantes, mas a mistura de personagens retratada não é nem um pouco explosiva.
De um lado, os antagonistas são despreparados, antiquados e estranhamente resistentes a usar força letal (levantando a questão de como esses dados não vazaram antes). Já os protagonistas têm péssimos protocolos de segurança e prioridades decisórias – o que é especialmente agravante, considerando a centralidade de um doutor em cibersegurança na trama.
Para piorar, o grande poder da personagem de Emily Blunt é fazer com que os outros fiquem olhando para ela com cara de bobo, o que talvez seja a habilidade menos condutiva para sequências de ação possível. Dessa maneira, eu poderia tranquilamente trocar a trilha grandiloquente de John Williams pelo tema de Benny Hill e, talvez, isso melhoraria o filme graças à comédia impremeditada.
O que sobra da tentativa de fazer algum comentário significativo sobre a sociedade ou a condição humana é minado por decisões muito esquisitas de direção. Disclosure Day tem uma trama de fundo sobre tensões militares iminentes que podem causar uma terceira guerra mundial, mas isso não vai a lugar nenhum, como se tivesse sido esquecido por completo na sala de edição.
Além disso, toda a grande trama dos alienígenas é bizarramente centrada nos Estados Unidos, dando a impressão que o resto do mundo não existe ou simplesmente não é relevante nesse cenário. Decisões como essa atropelam completamente qualquer pretensão que esse filme tenha de desenvolver o tema.
Como se não bastasse, há todo um subtexto religioso que é igualmente risível, sendo um daqueles momentos em que fiquei atônito da pior maneira possível ao pensar: “espera, de onde você está tirando isso aí?”. Infelizmente, a produção dá ao cristianismo uma espécie de autoridade moral que ultrapassa todo o resto do mundo (e que me desceu muito mal).
E, finalmente, após a grande revelação que dá nome ao filme, nada vemos do que acontece no mundo, seja a suposta terceira guerra mundial ou as preocupações concretas da sociedade. Há uma bizarra cena solene da humanidade inteira tendo uma revelação que, arrisco dizer, nem geraria tanta comoção assim, especialmente em uma era de desinformação e guerrilha digital.
Do ponto de vista técnico, Disclosure Day também não me impressionou muito. Além do já mencionado abuso de lens flare, a produção tem animais de computação gráfica bastante esquisitos e escolhas de direção que não se beneficiam muito do formato Imax, com grande parte do longa-metragem consistindo em pessoas conversando dentro de salas.
As aparições dos óvnis são basicamente relegadas a gravações com câmeras tremidas em cantos da tela onde elas se perdem em termos de escala ou interesse. Nem mesmo as atuações realmente empolgam – por mais que Emily Blunt se esforce, seu papel consiste em, fundamentalmente, ser “uma passageira no próprio corpo”, o que vem com uma bagagem de agência reduzida e de entonação monotônica. Já em relação a Josh O'Connor, vou dizer que saí do cinema sem nem saber exatamente quem era o personagem dele como pessoa, então, ele dificilmente merece um elogio meu.
Eu queria ter gostado de Disclosure Day, mas não rolou. Arrival faz basicamente tudo que esse filme faz, só que melhor (e olha que eu não sou nem o maior fã). Com isso, fiquei com uma estranha impressão de que algo na produção foi mexido em cima da hora, deixando o resultado menos coeso e interessante do que poderia ser em melhores circunstâncias.
Talvez, as pessoas tolerantes a um “soft sci-fi” sejam mais lenientes com os problemas da produção. O burburinho positivo a respeito do filme prova que existe, sim, um público capaz de gostar de Disclosure Day pelo que ele é – talvez seja aquele seu conhecido que acredita nos arcturianos e/ou no ET de Varginha. Eu, porém, esperava mais.
Outras divagações:
Jaws
The Terminal
The Adventures of Tintin
Lincoln
The Post
Ready Player One
West Side Story
The Fabelmans
Texto: Vinicius Ricardo Tomal
Edição: Renata Bossle

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