As minhas incursões pelo mundo de Pedro Almodóvar costumam ser cheias de surpresas. Como eu nunca tinha visto nada tão antigo quanto Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón, fiquei curiosa sobre quais características do diretor já se fariam presentes. A resposta foi: muitas delas.
Com apenas 31 anos no momento do lançamento desta produção, Almodóvar era um artista com uma identidade formada e que já havia se aventurado pelo cinema. Neste caso, trata-se de uma adaptação em longa-metragem dos quadrinhos General Erections, do próprio cineasta, que se enquadra facilmente no movimento La Movida Madrileña, exalando a liberdade que acompanha o fim de um período ditatorial.
Outra característica evidente de Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón é o baixo orçamento. Isso aparece tanto nas filmagens externas (não autorizadas e feitas tão discretamente quanto possível) como nos cenários e até mesmo nas transições de cenas (ou, talvez, principalmente nelas). Mas, como se trata de uma comédia, os momentos de economia mais óbvios apenas se somam às piadas.
A história começa como uma trama de vingança, mas eu diria que não é bem isso; é mais sobre três mulheres bem diferentes aprendendo a ser livres, cada uma a sua maneira. Para começar, Pepi (Carmen Maura) é uma jovem que vive da mesada dos pais e que está prestes a ver seus recursos acabarem – seu plano de vender a própria virgindade por uma boa grana, entretanto, é destruído após ela ser violentada por um policial (Félix Rotaeta).
Para se vingar, ela pede a ajuda de sua amiga Bom (Alaska), que canta em uma banda punk. Nem todos os planos dão certo, mas elas conseguem acabar com o casamento do policial quando percebem as insatisfações da esposa dele, Luci (Eva Siva), com o relacionamento. Porém, enquanto a vida de Pepi começa a se ajustar, as outras duas passam a encarar novas dificuldades.
Com isso, Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón mergulha em um universo feminino um tanto quanto absurdo, mas bem divertido (e cheio de descobertas sexuais). No meio do caminho, há sequências que não fazem muito sentido e personagens que apenas são esquecidas sem mais explicações, mas as três protagonistas vivem algo interessante. É como se a produção trouxesse um mero recorte dessas vidas, sem muita preocupação com trazer uma narrativa convencional.
Obviamente, muito do humor do filme vem da vontade de “chocar a sociedade de bem”. Almodóvar faz isso ao trazer aspectos muito íntimos das personagens como se isso não fosse nada demais; ou desejando que isso não fosse nada demais. O exagero faz com que, mesmo tantos anos depois, o longa-metragem ainda cumpra seu objetivo. As cores vibrantes e a ambientação nessa transição dos anos 1970 e 1980 apenas ajudam.
Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón é um filme de quem está experimentando a arte de contar as histórias que deseja contar. Assim, nem todos os momentos funcionam e há muito que poderia ser melhor. Ao mesmo tempo, há algo mágico nessa liberdade de poder fazer algo grande com pouco, de juntar os amigos e simplesmente criar algo. Um cineasta que faz algo assim em seu amadorismo é realmente alguém que tem muito a contar.
Outras divagações:
La mala educación
Los amantes pasajeros
The Room Next Door
Com apenas 31 anos no momento do lançamento desta produção, Almodóvar era um artista com uma identidade formada e que já havia se aventurado pelo cinema. Neste caso, trata-se de uma adaptação em longa-metragem dos quadrinhos General Erections, do próprio cineasta, que se enquadra facilmente no movimento La Movida Madrileña, exalando a liberdade que acompanha o fim de um período ditatorial.
Outra característica evidente de Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón é o baixo orçamento. Isso aparece tanto nas filmagens externas (não autorizadas e feitas tão discretamente quanto possível) como nos cenários e até mesmo nas transições de cenas (ou, talvez, principalmente nelas). Mas, como se trata de uma comédia, os momentos de economia mais óbvios apenas se somam às piadas.
A história começa como uma trama de vingança, mas eu diria que não é bem isso; é mais sobre três mulheres bem diferentes aprendendo a ser livres, cada uma a sua maneira. Para começar, Pepi (Carmen Maura) é uma jovem que vive da mesada dos pais e que está prestes a ver seus recursos acabarem – seu plano de vender a própria virgindade por uma boa grana, entretanto, é destruído após ela ser violentada por um policial (Félix Rotaeta).
Para se vingar, ela pede a ajuda de sua amiga Bom (Alaska), que canta em uma banda punk. Nem todos os planos dão certo, mas elas conseguem acabar com o casamento do policial quando percebem as insatisfações da esposa dele, Luci (Eva Siva), com o relacionamento. Porém, enquanto a vida de Pepi começa a se ajustar, as outras duas passam a encarar novas dificuldades.
Com isso, Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón mergulha em um universo feminino um tanto quanto absurdo, mas bem divertido (e cheio de descobertas sexuais). No meio do caminho, há sequências que não fazem muito sentido e personagens que apenas são esquecidas sem mais explicações, mas as três protagonistas vivem algo interessante. É como se a produção trouxesse um mero recorte dessas vidas, sem muita preocupação com trazer uma narrativa convencional.
Obviamente, muito do humor do filme vem da vontade de “chocar a sociedade de bem”. Almodóvar faz isso ao trazer aspectos muito íntimos das personagens como se isso não fosse nada demais; ou desejando que isso não fosse nada demais. O exagero faz com que, mesmo tantos anos depois, o longa-metragem ainda cumpra seu objetivo. As cores vibrantes e a ambientação nessa transição dos anos 1970 e 1980 apenas ajudam.
Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón é um filme de quem está experimentando a arte de contar as histórias que deseja contar. Assim, nem todos os momentos funcionam e há muito que poderia ser melhor. Ao mesmo tempo, há algo mágico nessa liberdade de poder fazer algo grande com pouco, de juntar os amigos e simplesmente criar algo. Um cineasta que faz algo assim em seu amadorismo é realmente alguém que tem muito a contar.
Outras divagações:
La mala educación
Los amantes pasajeros
The Room Next Door

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