É muito triste pensar que Coyote vs. Acme talvez acabe sendo mais lembrado pela grande pataquada de David Zaslav na direção da Warner do que por qualquer mérito próprio. Afinal, esse foi um daqueles projetos engavetados depois de completos e posteriormente resgatados pela Ketchup Entertainment (assim como o simpático The Day the Earth Blew Up).
A princípio, Coyote vs. Acme tenta resgatar um pouco da relevância dos Looney Tunes em tempos modernos ao colocá-los em uma pegada mais Who Framed Roger Rabbit. Ou seja, temos aqui um híbrido de live action com animação e uma trama que, apesar de atípica, funciona surpreendentemente bem.
Bebendo da tradição de dramas de tribunal americanos, Coyote vs. Acme situa sua premissa de maneira simples. Cansado de ser explodido, amassado e ejetado por produtos da Acme em sua incessável busca por seu nêmesis, Will E. Coyote vai até a cidade de Albuquerque para recrutar um advogado meio pé de chinelo, Kevin Avery (Will Forte), e processar a megacorporação.
Kevin, por sua vez, não está nem um pouco a fim de deixar a vida fora dos holofotes e se confrontar com seu antigo colega e chefe do jurídico da Acme, Buddy Crane (John Cena). Mas, com o apoio de sua sobrinha e estagiária Paige (Lana Condor) e com evidências de que talvez as falhas de produto da Acme tenham uma motivação sinistra, Kevin e Coyote entram em uma briga que pode os levar ao centro de uma controvérsia nacional.
Balanceando bem a loucura anárquica típica desses personagens e uma história que leva a sério seus próprios absurdos, Coyote vs. Acme é um pequeno milagre e realmente fico feliz que o filme tenha chegado a ver a luz do dia. Ele é engraçado, tem um bocado de coração e é bastante fiel ao espírito da franquia, ainda que com uma roupagem bem diferente.
Destaque aqui as interações de Will Forte, retratado como um advogado 100% sério em um mundo de loucuras animadas. Isso funciona bem melhor do que os Space Jams da vida, tornando esse talvez o melhor filme dos Looney Tunes (ainda que essa não seja uma métrica tão difícil de ser batida).
Assim, essa talvez não seja a versão mais charmosa desse projeto, que se beneficiaria de uma animação tradicional ao invés de computação gráfica (ainda que a produção tente emular o visual clássico da era Chuck Jones) e de um pouco mais de coragem em seu roteiro. Mas o filme faz com que o público se importe genuinamente com sua premissa absurda e é surpreendentemente sagaz.
Aliás, confesso que fui aos cinemas esperando por uma distribuição unicamente dublada e que praticamente não faria esforço para atingir um público mais maduro. Contudo, fui surpreendido pela determinação em estabelecer Coyote vs. Acme como um filme “de verdade” em vez de um mero veículo para a nostalgia e um monte de cenas bobinhas para a garotada.
A propósito, acho que é válido explicar o que eu quis dizer com “um pouco mais de coragem” quando falei do roteiro, pois isso se relaciona com um dos meus maiores problemas em relação à produção. Há algo de esquisito na maneira como o conflito é exposto, de modo que não me surpreenderia se tiverem ocorrido mudanças de última hora para amenizar o subtexto, um fator que pode até mesmo ter colaborado para o cancelamento pela Warner.
De qualquer modo, toda a estrutura de Coyote vs. Acme se escora no subgênero de filmes de tribunal em que se descobre que um grupo vulnerável está sendo sistematicamente prejudicado por uma empresa ou pelo governo, levando a apoteóticas discussões no congresso e a uma comoção popular – vulgo, o estilo Erin Brockovich.
Esse é um tipo particular de narrativa, mas que é empregado de modo meio tímido. Toda a primeira metade do filme (talvez sua melhor parte) estabelece um mundo onde desenhos são cidadãos de segunda categoria, suas demandas são silenciadas e a Acme parece estar ativamente corroborando para que isso aconteça.
A iconografia, os nomes dados e vários outros elementos dão a entender que esse é um filme que, no fundo, queria falar de racismo sistêmico, mas parece que, em algum ponto, a ideia foi abortada, deixando o final meio sem “mordida”. Entendo as dificuldades em apresentar essa metáfora no cenário político americano – ainda mais com um restolho de sátira política –, mas essa é uma decisão que deixa tudo menos coeso e menos inteligente.
Mesmo para um filme “para toda a família”, essa mensagem seria algo possível de executar de maneira apropriada. Tanto é que, com sua enxuta duração de uma hora e quarenta minutos, o filme parece acabar de modo meio abrupto e sem fôlego.
Alguns conflitos pessoais são resolvidos de modo tocante e a história ruma para um lugar certo. No entanto, o desfecho triunfal que se espera desse tipo de obra fica apenas implícito, dando aquela sensação de “pois é, é isso então”, o que é bem triste, ainda mais porque eu queria algo a altura do restante da produção.
Apesar dessa ressalva, Coyote vs. Acme é uma grata surpresa, tanto por ser finalmente lançado depois de quase três anos na geladeira, quanto pelos seus muitos méritos próprios. Não é um filme perfeito, mas certamente é divertido e engraçado, respeitando todo o legado desses personagens e tendo bem mais conteúdo do que se poderia esperar.
Ele mostra que, dentro e fora das telas, às vezes, o sujeito pequeno e com sede de vitória pode prevalecer sobre as grandes corporações.
Outras divagações:
The Day the Earth Blew Up: A Looney Tunes Movie
Texto: Vinicius Ricardo Tomal
Edição: Renata Bossle

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