Divagações: Lost in Translation

Quando Lost in Translation foi lançado, o filme chamou atenção. Seja por sua temática, por sua diretora, por seu elenco, pela forma como ...

Quando Lost in Translation foi lançado, o filme chamou atenção. Seja por sua temática, por sua diretora, por seu elenco, pela forma como sua história é contata, pelas coisas que ficam no ar. Naquele momento, infelizmente, eu talvez fosse muito nova (ou, talvez, só muito imatura) para entender exatamente do que o filme se tratava. O que eu vi foram duas pessoas entediadas, mesmo sendo turistas em um país cheio de locais fantásticos a serem visitados. E eu não pude deixar de ficar um pouco chateada com esses personagens. Afinal, eles estavam simplesmente desperdiçando uma grande oportunidade!

Tantos anos depois, eu confesso que ainda sinto um pouco desse ressentimento em relação aos protagonistas de Lost in Translation. Eles são pessoas muito privilegiadas e que parecem simplesmente não perceber isso. Ainda assim, nesse meio tempo, eu vi mais filmes, cresci, viajei e vivi diferentes relacionamentos, com diferentes graus de sucesso. E, embora eu ainda não goste essencialmente dessas pessoas, eu acho que consigo entendê-las melhor.

Charlotte (Scarlett Johansson) é uma jovem, casada a pouco tempo e que está questionando seu relacionamento. Ela foi a Tóquio para acompanhar seu marido, John (Giovanni Ribisi), que está trabalhando como fotógrafo no país. Por sua vez, Bob Harris (Bill Murray) é um ator que já viveu melhores momentos em sua carreira. Ele está em Tóquio para gravar um comercial de whisky e parece temer o momento em que terá que voltar para casa e encarar sua família.

Charlotte e Bob se encontram pelo hotel algumas vezes, trocam olhares e se reconhecem enquanto figuras solitárias. Ao longo de alguns dias, eles desenvolvem uma amizade que se desenrola especialmente durante noites insones. Durante o dia, ela faz passeios pelo país, visita templos e se sente imensamente vazia por não ter as reações emocionais esperadas. Ele, por sua vez, faz um trabalho entediante, mas bem remunerado, que não o satisfaz.

À noite, os dois ouvem jazz no bar do hotel, fazem amigos passageiros, vão a bares, restaurantes e até karaokês. Eles vivem uma espécie de vida paralela e parecem flertar, mas também conversam abertamente sobre seus relacionamentos, suas carreiras e suas famílias. A diferença de idade surge em diversas interações – ele é muito mais seguro sobre o futuro dela do que ela mesma; ela reage com humor a certos comportamentos dele.

Sob muitos aspectos, Lost in Translation é um filme sobre uma amizade breve e inesperada. Obviamente, é um filme sobre comunicação: enquanto a maior parte das histórias se constrói por falta de uma comunicação adequada, esta é praticamente o contrário. Em meio a muito silêncio e a uma – literal – falta de compreensão por todos os lados, duas pessoas se encontram e se sentem livres o suficiente para abrir seus corações. Ao mesmo tempo, eles mal se conhecem e há momentos em que eles se desapontam mutuamente. Ainda assim, este filme consegue ser único em sua construção e isso o torna relevante, mesmo após tantos anos.

Por conta de sua natureza, Lost in Translation também é um filme muito contido. Ele se fecha dentro dessas breves horas em que o relacionamento de seus protagonistas acontece. Seus personagens são pessoas normais, vivendo uma situação em que elas se sentem levemente desconfortáveis. Não há nada fantástico acontecendo. Não há um grande conflito. Mas isso não significa que a produção seja entediante. Assim como essas pessoas estão se conhecendo, você também as está conhecendo. E elas são interessantes.

Outras divagações:
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