Quando você se dispõe a ver um seriado como Twin Peaks – famoso por ser esquisito –, é preciso aceitar que muitas perguntas vão ficar no ar. Os resquícios de mistérios fazem parte da “experiência”, digamos assim. Caso você esteja de acordo com isso, meu conselho é: siga em frente e divirta-se.
O detalhe é que, uma vez que você adentrou nesse mundo, há outras escolhas a serem feitas. Você pode se restringir à primeira temporada, por exemplo, e permanecer naquele mundo que foi considerado brilhante. Você pode seguir para a segunda temporada e tentar entender o motivo do cancelamento (ele é bem óbvio). Também é possível dar um passo além e conferir a “terceira” temporada, que saiu em 2017, 26 anos após o fim da série original.
No meio do caminho está Twin Peaks: Fire Walk with Me, um filme de 1992, lançado na esteira do seriado e que busca contar uma história prévia. Assim, pela primeira vez, temos Laura Palmer (Sheryl Lee) realmente interagindo com as pessoas que sofreram posteriormente com a sua morte, como sua melhor amiga Donna (agora interpretada por Moira Kelly), seu namorado Bobby Briggs (Dana Ashbrook), seu amante James Hurley (James Marshall) e seu pai, Leland (Ray Wise).
Ao mesmo tempo, o filme também traz os primeiros contatos do agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan), do FBI, com esse mistério, por meio das investigações do assassinato de Teresa Banks (Pamela Gidley), ocorrido na cidade vizinha. Mas talvez aqui comecem os problemas mais sérios, já que a história foi reescrita para que ele tivesse um papel menor, criando uma série de inconsistências.
Para completar, Twin Peaks: Fire Walk with Me também tinha a estranha missão de apresentar elementos que explicassem o “black lodge”, embora isso ainda não fosse algo que os personagens estivessem exatamente buscando. Sob certos aspectos (e considerando o uso de drogas), até funciona, mas o resultado parece forçado.
Aliás, reza a lenda que David Lynch pretendia fazer mais filmes, apresentando toda essa “mitologia” com mais profundidade. A ideia é que essas produções também explorassem melhor o que aconteceu com Phillip Jeffries (David Bowie), um personagem muito interessante, mas que também sofre por ter pouco tempo de tela.
Mas nada disso saiu do papel porque a produção não foi bem recebida pelo público (e nem pela crítica) à época, o que é compreensível – a classificação indicativa R, por conta de cenas de nudez e violência, não deve ter ajudado. Depois de uma primeira temporada muito cativante e com vislumbres de maluquice, as tentativas de explicar aquele mundo sem o apoio do mote original (desvendar o assassinato de Laura Palmer) parecem sem propósito, ainda mais por conta da esquisitice crescente.
O detalhe é que Twin Peaks: Fire Walk with Me parece ter algo interessante a dizer, mas ele se perde em uma profusão de personagens e histórias que não se cruzam como deveriam. Para quem está imerso no universo do seriado, há muito a ser aproveitado em termos de informação, mas é preciso admitir que a produção não se segura muito bem sozinha e que o tom geral mudou, acompanhando a troca de protagonistas.
Aliás, considerando o cenário atual em que o cinema se alimenta fortemente de nostalgia, eu admiro David Lynch por ter feito algo diferente em sua transposição de mídias. Não deu muito certo, mas foi uma tentativa válida e estranhamente digna de Twin Peaks.
Outras divagações:
Dune

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