Divagações: On Chesil Beach

On Chesil Beach

A experiência de ler um livro e, posteriormente, ver a adaptação para o cinema, sempre leva a comparações. Quando eu encarei as páginas da obra de Ian McEwan, já estava ciente da existência de um filme – com roteiro do próprio autor – e me questionei em diversas passagens sobre como elas seriam transpostas para a tela. Afinal, esta é uma história sobre um momento específico na vida de duas pessoas. E não apenas isso: é um momento muito íntimo.

On Chesil Beach se passa em 1962, em um quarto de hotel à beira-mar onde Edward Mayhew (Billy Howle) e Florence Ponting (Saoirse Ronan) pretendem passar sua noite de núpcias. A situação é constrangedora para ambos e o nervosismo é palpável. Aos poucos, vamos descobrindo mais sobre cada um dos dois, por meio de vislumbres que exploram seus contextos familiares bem diferentes e o desenvolvimento do romance que culminou no casamento.

A questão é que, nesta mesma noite, eles precisarão lidar com um impasse considerável, que envolve uma decisão que mudará o rumo da vida de ambos. Tudo o que eles passaram até aquele ponto (juntos e separados) tem seu peso, assim como tradições, aspectos culturais e expectativas individuais e sociais. Para quem olha de fora, mais de meio século depois, a falta de conhecimento e de comunicação são gritantes. Mas os protagonistas ainda não sabem disso.

Assim, On Chesil Beach se posiciona em um momento histórico onde a situação trazida ainda é possível, mas os personagens viverão tempo o suficiente para entenderem seus erros e a consequência da ignorância. Além disso, diferentemente do livro, o filme é mais fechado e dá destinos muito mais claros para os personagens, deixando certas informações mais expostas (para quem leu: os momentos finais têm algumas mudanças, mas nada de grande consequência, não se preocupe).

De qualquer modo, esta adaptação consegue levar para a tela a sutileza de um romance em evolução, com a aproximação de pessoas vindas de famílias quebradas (de diferentes formas), e mostrar como uma escolha pode colocar tudo a perder. É algo construído nos detalhes, ao redor de um único dilema, de um erro que parecia ser inevitável.

Dito isso, fica quase impossível não comparar On Chesil Beach e Atonement, baseado em um livro do mesmo autor e também estrelado por Saoirse Ronan. Sob certos aspectos, a estrutura da história é bastante similar e o desconhecimento tem um peso importante em ambos os casos. Entretanto, esta nova história envolve apenas adultos e não há uma guerra no horizonte, então, tudo é menor, mais íntimo, destinado a ficar apenas entre os dois. 

Esta característica inerente à trama funciona bem no livro, mas sofre um pouco na adaptação cinematográfica. Por mais que os atores entreguem performances muito boas e tornem seus personagens compreensíveis para o público, o foco pontual do dilema e a necessidade de explorar suas causas e consequências com idas e vindas no tempo simplesmente deslocam o clímax (por favor, perdoem o trocadilho) e enfraquecem o filme. Ainda assim, On Chesil Beach continua a ser fascinante por si só.

Outras divagações:
The Good Son
Atonement

P.S.: Já que estou divagando sobre a produção, gostaria de apontar minha irritação com o fato de que, oficialmente, On Chesil Beach está disponível para streaming apenas na versão dublada. Não sei qual é a dificuldade em relação a oferecer o áudio original, mas isso é muito frustrante (e é mais um fator que afasta as pessoas de serviços objetivamente ruins).

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