Divagações: La délicatesse

Vou começar com uma história pessoal (para variar!). Sempre que possível, eu procuro ler o livro antes de ver o filme. Assim, quando me i...

Vou começar com uma história pessoal (para variar!). Sempre que possível, eu procuro ler o livro antes de ver o filme. Assim, quando me interessei por La délicatesse – antes mesmo da chegada aos cinemas – resolvi dar uma chance à obra original de David Foenkinos, também responsável pela adaptação do texto para o cinema.

O detalhe é que eu não gostei do livro. Achei o começo fantástico, capaz de prender a atenção. A reviravolta também é interessante. Mas a protagonista não. A personagem que deveria ser o coração dessa trama simplesmente a segura, sem nunca seguir em frente e deixando o leitor entediado por longos trechos. Até que ela resolve fazer alguma coisa. Não exatamente do jeito esperado, mas de forma a pelo menos encerrar.

Assim, imaginava que o filme usasse o que a história tem de melhor e melhorasse seus pontos fracos, carregando na tensão e apostando em atores com uma boa química entre si. O detalhe é que a direção é dos irmãos Stéphane e David Foenkinos – ou seja, o fruto continuou no mesmo pé.

Nathalie Kerr (Audrey Tautou) é uma jovem bonita que vive uma história de amor com o igualmente belo François (Pio Marmaï). Tudo em sua vida segue muito bem, até que uma completamente inesperada viuvez vira seu mundo de cabeça para baixo. Ela passa a se dedicar integralmente ao trabalho, o que não impede as investidas do chefe, Charles (Bruno Todeschini), e a torna uma pessoa distante dos colegas. As coisas só mudam novamente quando um subordinado atrapalhado e feio, Markus Lundell (François Damiens), entra em sua sala exatamente no momento errado.

Como o grande mérito dessa história é, justamente, apostar em bons corações ao invés de esperar que todos sejam bonitos, inteligentes e poderosos, La délicatesse é um filme que merece atenção. O drama vivenciado por Nathalie não é muito diferente do que o público espera. Quando o filme começa com um casal feliz, é fato de que a trajetória irá envolver – pelo menos – um coração partido e um novo amor. A surpresa, nesse caso, é que ela não parece fazer a menor questão disso.

Então, quando Markus aparece, ela passa a lidar com uma situação diferente em sua vida, onde faz tempo que não há nenhuma novidade; já ele está feliz porque nunca imaginou que ficaria com uma mulher tão bonita. O detalhe é fazer o público acreditar que realmente existe algo entre os protagonistas que transforme essa situação em mais do que alguns jantares e telefonemas. Quando surge o amor?

Talvez eu simplesmente tenha um coração frio, mas a verdade é que La délicatesse não consegue me convencer. Todo o apelo da produção parece estar concentrado em como Audrey Tautou é charmosa, correta, bondosa e desejável. Resta ao personagem de François Damiens apenas cuidar dessa frágil dádiva que caiu a seus pés. Mas eles não deveriam ser um casal? Como construir um relacionamento dessa forma?

O filme é bonito, sensível e conta com a incrível vantagem de se passar em Paris – a cidade está brilhante e absolutamente romântica. O elenco faz seu trabalho de forma competente e não há um fio de cabelo fora do lugar nos aspectos técnicos. Só faltou uma trama que fizesse tudo isso realmente valer a pena.

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