Divagações: Her

Her é um filme que chama a atenção por suas conquistas. Muitos filmes já ganharam o Oscar por Melhor Roteiro, mas são poucos os que cons...

Her é um filme que chama a atenção por suas conquistas. Muitos filmes já ganharam o Oscar por Melhor Roteiro, mas são poucos os que conseguiram sequer pisar na cerimônia de entrega com uma trama futurística envolvendo robôs, inteligência artificial ou qualquer coisa relacionada. A Academia entende o mérito da ficção científica, mas não gosta muito de ver as temáticas do gênero ‘maculando’ grandes dramas.

E esse filme é um drama, muito mais do que qualquer outra coisa. Com roteiro e direção de Spike Jonze, temos uma obra que questiona humanidade, sentimentos, capacidade intelectual e o próprio futuro. As consequências do que acontece na tela poderiam gerar incríveis cenas de perseguição, tiroteios e muita ação, mas não vemos nada disso. Estamos acompanhando pessoas normais vivendo as suas vidas da melhor forma que conseguem.

Theodore (Joaquin Phoenix) é um homem sensível e solitário que trabalha escrevendo cartas para outras pessoas. É um emprego estranho, questionável e um pouco depressivo – mas ele parece gostar e até sente orgulho do que faz. Contudo, ele está sofrendo, pois ainda gosta de sua ex-esposa, Catherine (Rooney Mara), e reluta em assinar os papéis do divórcio. Um pouco de alento surge, então, em um novo sistema operacional inteligente que ele compra para seu computador, Samantha (Scarlett Johansson), que acaba se tornando sua confidente, amiga e amante.

Esse relacionamento de natureza complexa encontra algumas oposições, mas não tantas quanto seria esperado. Os amigos dele aprendem a lidar com isso, com destaque para Amy (Amy Adams), que também tem uma jornada própria interessante durante o filme e acaba se tornando amiga de um sistema operacional. Na verdade, os maiores questionamentos não são aqueles que poderiam ser esperados e Her prefere se concentrar nos sentimentos de seus personagens e em suas evoluções pessoais.

Isso é possível devido ao trabalho muito sensível e delicado de Spike Jonze que, mais uma vez, consegue tocar pontos importantes da natureza humana ao fazer as perguntas ‘erradas’. Não é à toa que ele tenha sido muito premiado por esse trabalho, já que o filme representa todo o auge de sua capacidade criativa em ação. Não, não estou exagerando.

O elenco, obviamente, também tem seus méritos. Joaquin Phoenix consegue levar nas costas uma produção em que ele está, praticamente, falando sozinho o tempo todo. Já Amy Adams (em um de seus melhores trabalhos) e Rooney Mara funcionam como contrapontos interessantes ao apresentarem diferentes perspectivas femininas para a situação. Por sua vez, a voz de Scarlett Johansson é um charme a parte e nos convence de que é possível amar alguém sem existência física.

Ou seja, com um texto primoroso e um elenco de qualidade, Her consegue ser um bom filme com aparente pouco esforço. Ainda assim, há muitos detalhes a serem observados. Locais de trabalho, casas, ambientes urbanos, espaços de lazer e até elevadores foram pensados com muito cuidado para criar um futuro não tão distante e, ainda assim, indeterminado. As tecnologias mostradas na tela também parecem estar um passo além do que é atualmente possível e não é difícil compreender os conceitos.

Talvez a produção traga lágrimas para os seus olhos e talvez ela proporcione muitos questionamentos. Her é um filme inteligente e sensível na medida certa, sem apelar para recursos fáceis e sem menosprezar seu público. Perfeito.


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