Divagações: Power Rangers

A série Power Rangers é mais uma daquelas muitas influências que definiram a minha bagagem cultural infantil, ainda que não tenha sido a ...

A série Power Rangers é mais uma daquelas muitas influências que definiram a minha bagagem cultural infantil, ainda que não tenha sido a primeira franquia do tipo a mexer com a minha imaginação – deixo esse mérito para Dengeki sentai Chenjiman. Mas dou a devida importância à série da Saban, por ter suprido o imaginário ocidental com seus robôs gigantes e monstros de borracha após a morte da Rede Manchete e da Tikara Filmes, responsáveis por trazer os tokusatsus japoneses diretamente da fonte.

O maior problema é que os americanos não pareciam ter muito respeito pelo que, ao menos para mim, tornava essas obras interessantes. Constantemente, eles faziam escolhas questionáveis para tornar esses programas palatáveis ao gosto ocidental, quando parte do seu apelo era justamente o senso de completa estranheza do formato japonês. Não é à toa que toda vez que a Saban encasquetava de lançar algo por sua conta e risco, como o terrível Mighty Morphin Power Rangers: The Movie, de 1995, o resultado era próximo do desastroso.

Isso me tornou cético à ideia de uma nova geração de rangers reimaginada para os cinemas, ainda mais porque os designs pareciam me afastar cada vez mais da produção. Então, não há como me condenar por ter ido ver Power Rangers com um pé atrás.

Diferentemente da série de TV, onde todos os rangers já são os caras mais legais da escola, temos aqui um grupo de adolescentes cheios de problemas e questionamentos sobre a vida. Jason (Dacre Montgomery), um quarterback famoso e queridinho da cidade, acaba interrompendo a sua promissora carreira depois de uma brincadeira dar errado; suspenso do time, ele está em detenção escolar por tempo indeterminado. Lá, ele conhece Billy (RJ Cyler), um garoto autista e constantemente provocado por outros alunos, e Kimberly (Naomi Scott), que também passa por um momento difícil na escola. Devido a uma série de coincidências, o trio acaba se encontrando com Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.), outros adolescentes da cidade, em uma pedreira abandonada. Nesse local, o grupo descobre uma série de artefatos enterrados que os levam até Zordon (Bryan Cranston), uma entidade alienígena dedicada a proteger a vida na Terra e deter a vilã Rita Repulsa (Elizabeth Banks).

Conceitualmente, o filme não se difere muito do que poderíamos esperar de uma nova origem para os rangers. O grupo vai lentamente aprendendo a trabalhar em equipe e a dominar seus poderes para enfrentar as ameaças que os cercam – quanto a isso, a obra é formulaica e previsível, ficando dentro daquilo que, convenhamos, Power Rangers sempre foi. Porém, a grata surpresa é perceber o quanto a parte mais humana da obra é bem trabalhada. Com um elenco entrosado e uma pegada Breakfast Club, o filme consegue efetivamente colocar personagens diferentes com preocupações que soam bastante realistas para interagir. Como um filme sobre adolescentes crescendo e aprendendo uns com os outros, tudo é muito bacana.

O problema começa com a parte fantástica da coisa, que se perde ao tentar colocar maturidade em uma proposta ridícula, que só se sustenta quando acompanhada de uma proposta mais lúdica. Ao contrário de sua contraparte televisiva, que pelo menos admite que não é algo para se levar a sério, o filme Power Rangers tenta o tempo todo nos fazer acreditar naquele universo como algo sério e com perigos reais.

O visual do longa-metragem é excessivamente sombrio e sujo, os cenários têm um aspecto mais industrial e o design de produção é absolutamente terrível – armaduras, inimigos e robôs: tudo é sem graça, sem identidade e sem um pingo de charme. As lutas são mal coreografadas e com uso excessivo de CGI. Ainda pior é o clímax com seu monstro gigante que tem vergonha de ser um macaco em uma armadura dourada, em um embate final digno das piores partes de Transformers. Para completar, o fato de Elizabeth Banks não meter medo em ninguém não ajuda nem um pouco a evitar essa impressão.

Assim, falta aquele charme mambembe dos efeitos práticos, aquele senso de materialidade que, ao menos para mim, torna tudo mais interessante. E olha que nem é preciso ir muito longe para ver um filme que contornou isso muito bem, já que Kong: Skull Island consegue colocar monstros para brigar com um visual estilizado e limpo. Ou seja, se eu quiser ver robôs gigantes lutando, é mais recomendado esperar pelo eventual lançamento de Pacific Rim: Uprising do que depender de diretores sem uma clara paixão pela destruição em massa que os mechas geram por aí.

Power Rangers não é um desastre e talvez converse bem com essa nova geração que pode considerar constrangedores justamente os pontos que eu considero os mais charmosos do original. Mesmo assim, não deixa de ser um filme de ação medíocre com algumas pitadas de elementos legais. Para os fãs de longa data não há muito o que se ver, salvo uma ou duas boas referências ao original e a esperança meio vazia de que uma possível continuação consiga ser melhor e aproveitar tudo que o material tem a oferecer.

Texto: Vinicius Ricardo Tomal
Edição: Renata Bossle

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